segunda-feira, 3 de junho de 2013

Eu não estou viciada

Tem pessoas que viciam. Abraços que viciam. Olhares, sorrisos e vozes que viciam.

O problema de se viciar em uma voz, é não conseguir ouví-la sem sorrir. Num sorriso, é sorrir duas vezes mais por vê-lo. Num olhar, é o reflexo. Num abraço, é a necessidade. E numa pessoa, é o próprio vício.

Viciar-se é saber que tem abraço bom, tem abraço ruim e tem o seu. É perceber que olhos também sorriem. É saber ler olhares e pensamentos. É ler uma frase, e ser capaz de ouvir a voz dizê-la. É não saber o que sente - saber apenas o que sente agora, e o que sente quando a pessoa sorri.

"O vício é o estrume da virtude", já dizia, acertadamente, Brás Cubas. Concluo que o vício é o estrume do amor. A necessidade, o pensar, o impulso, são sintomas de um vício nem sempre saudável e destruidor de planos.

Sozinhos, em casa, no ônibus, na rua, apenas com nossos pensamentos e nossos "grilos da consciência", fazemos planos: Planos de nos afastarmos, de ignorar, de esquecer, de desapegar, de não falar e de não pensar. Planos que se vão em um segundo, tão rápido quanto chegaram, como se um sorriso acabasse com todo o nosso bom senso (é só você vir com esse seu sorriso lindo, que eu abandono todos os planos que fiz contra nós).

E é um tal de só dizer "quem dera". Um tal de se sentir culpado, de querer mais e depois planejar tudo de novo. De levar bronca da consciência. De jurar que vai parar, a hora que quiser (eu paro quando quiser), e de fazer tudo de novo.

E ninguém mais trabalha direito. E checam-se e-mails, facebooks, whatsapps, twitters e mensagens. E é sempre o último pensamento da noite e o primeiro da manhã. E são feitos planos e contra-planos, elaborados diálogos, cenas de filmes, trilhas sonoras, dramas, comédias, romances e tragédias. Mas o grilinho sempre te puxa e te solta, nesse vai-e-vém de quereres e pensamentos.

Será que há uma clínica de reabilitação para viciados em abraços, olhares, sorrisos e vozes?

Enfim, chega de mimimi. Se houver, bem. Se não, oras, eu não estou viciada. Paro quando quiser...