sexta-feira, 28 de junho de 2013

...É erro de lógica!

" - O sistema tá dando bug."
" - Ah! É erro de lógica."

Quem já teve qualquer contato com programação está habituado com este tipo de diálogo. "Erro de Lógica" resume 50% dos erros de sistemas (looping, retornos errados, etc). É triste ouvir "Erro de lógica". Aliás, não sei o que é mais triste: ouvir isto quando se está ajustando o programa alheio, ou quando se está construindo o seu próprio. Acho que a segunda opção.

Fazer um programa, é como ter um filho - Você o acompanha desde a primeira linha de comando, até o último ponto. Todos os "ifs" e "elses", colocando cada ponto e vírgula, ajustando cada erro, criando variáveis auxiliares, enfim, tudo. Quando está pronto, é uma obra prima. Vê-lo rodando dá até aquela felicidadezinha e a sensação do "fui eu que fiz". O problema é quando dá erro de lógica: É uma frustração. É como se você fosse obrigado a reformular sua vida. A lógica, a ideia, os princípios a partir do qual você construiu tudo aquilo... estão errados. Haja baque! Haja autoestima para suportar este golpe! Mas o mais difícil é consertar. É tão difícil pensar "fora da caixinha", elaborar uma linha de pensamento totalmente nova, enxergar o quê, ali, naquela perfeição, está errado...

É essa a hora de pedir ajuda. Eu, geralmente, recorro à Descartes e aos amigos. À Descartes, porque, nesta hora, em que todas as suas certezas vieram por água abaixo, nada melhor do que o método cartesiano: Desconstruir todas as suas verdades, até chegar a uma verdade absoluta, e construir novas verdades a partir desta. Aos amigos, porque quando estamos dentro de uma situação, dentro de uma linha de pensamento que nós mesmos criamos, é difícil sair e ver o todo. Ficamos tão fechados por nossas viseiras de lógica, que não conseguimos ter visão periférica. Perdemos o macro por prestar atenção demais ao micro. E, talvez, uma outra pessoa, que não tenha a mesma lógica e nem as mesmas verdades, que não ande com nossas viseiras, consiga enxergar coisas óbvias e tão difíceis de serem por nós enxergadas. Talvez, uma segunda opinião, seja o interruptor de um quarto escuro.

A lógica é mesmo um problema. Porque quando você não a tem, não consegue programar - pode até jogar códigos a esmo, mas jamais terá um programa rodando. E quando a tem em excesso, corre risco de ficar preso na caixinha, de construir castelos e mansões, detalhadamente, baseados em lógica.... mas ai, se uma lógica na viga da base do castelo estiver errada! A lógica em excesso também pode nos deixar paranoicos. Sabe aquela coisa de "Deixa a vida me levar"? Não funciona com pessoas muito lógicas. Estas ficam procurando razões para tudo! Não aceitam que, na vida, algumas coisas aconteçam sem motivo, algumas pessoas surjam sem motivo e tão sem motivo vão-se embora. Tudo tem de ter uma explicação. Para as pessoas com excesso de lógica, é uma tortura não poder saber o que virá na próxima vez em for acionado o "random".

Eu poderia estar falando da minha vida, ou do momento histórico do país, mas ainda bem que estou falando apenas de programação.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Querê tapá o Sol com a penêra, é feidimais!

Mudando um pouco de assunto, voltemos ao feminismo. A Comissão de Transportes aprovou hoje (27/06) um projeto de lei que, a exemplo do Rio de Janeiro, cria vagões exclusivos para mulheres nos horários de pico (em dias de semana, das 6h às 9h e das 17h às 20h), na tentativa de coibir possíveis "assédios".

Na minha opinião, é um absurdo que um projeto de lei como este seja sancionado. Ao contrário do que parece, ele não preza pelos direitos das mulheres (ou de qualquer pessoa), e praticamente legitima o assédio sexual, que, infelizmente é corriqueiro nos trens e conduções lotadas. Este projeto trata o assédio como ago  normal e "impossível de se evitar", sendo mais fácil trancafiar as mulheres num vagão do que punir os assediadores. Me digam: Eu, como Estado, devo criar leis que punam ladrões e programas de educação social para que "roubos" não aconteçam, ou devo simplesmente trancar todos os pertences dos cidadãos com um cadeado, para que não sejam roubados? É a mesma lógica...

Sem contar a questão dos transportes, tão difundida atualmente. Me digam, senhores, e se uma lésbica, no vagão das mulheres, passar a mão em mim, não será assédio? Então qual problema será efetivamente resolvido com este projeto de lei? NENHUM, ao que me parece. Respeito é cabível a homens e mulheres, hetero ou homossexuais, estando num vagão vazio ou lotado. Ao Estado, cabe implantar projetos sociais e de educação cívica nas escolas, para suplantar de vez o machismo, e tratar o assédio como um CRIME, passível de punição como tal. Além de investir em transportes e mobilidade urbana (e quando falo em investir, não digo jogar mais dinheiro, mas trabalhar com PLANEJAMENTO urbano, que hoje é feito de forma quase que ocasional, à mercê do anseio de lucro das companhias de transporte). Porque, afinal, em vagão feminino, masculino ou misto, ninguém merece ir espremido e encoxado num vagão lotado. É esse o assédio que se deve coibir - o do Estado.

Senhores políticos, minha mãe sempre diz que o preguiçoso trabalha duas vezes, assim como o GRANDE Criolo diz que "Querê tapá o Sol com a penêra, é feidimais!". Os senhores deveriam ouvir mais Rap, e às vossas digníssimas mães.

Leia a matéria na íntegra aqui.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Como Cães e Gatos

É engraçado como sempre comparei a forma das pessoas se relacionarem  com o bicho que preferem. Por exemplo: gato e cachorro.

Quem gosta de cachorro não costuma entender o amor como algo livre e espontâneo. Porque o cachorro é amor devocional. Cachorro abana o rabo quando o dono chega - está sempre de bom humor, sempre correndo atrás do dono. Bata num cachorro, brigue com ele, e dois segundos depois, é ele que vai lamber sua mão, como se quisesse fazer as pazes. Pra começar que cachorro tem "dono", né? Já não é a mesma relação com gato.

Gato, é amor livre. Aquele amor que você dá, sem esperar nada em troca, e também recebe quando menos espera. Não dá pra forçar um gato a gostar de você: Ou ele gosta, ou não gosta. E quando ele gostar, vai demonstrar. Passe semanas fora, e ele não virá abanando o rabo pra você - ficará ressentido, magoado; terá de ser reconquistado aos poucos. Gato é orgulhoso, fica bravo se brigam com ele ou se o proíbem de algo. Mas a seu tempo, e a seu espaço, perdoa. Gato não tem dono, tem companheiro.

... E extendendo um pouco mais essa reflexão, esses dias, em casa, com meu gato, percebi que temos atitudes ainda mais comparáveis: Eu estava me arrumando, e ele ronronando e se esfregando em minhas pernas. Não que eu não o quisesse ali, ou que eu não o amasse. Só tinha coisas mais importantes para fazer. E continuei me arrumando e cuidando das minhas coisas, enquanto meu gato me dava carinho e pedia atenção. Quando ele se cansava e ameaçava ir embora, eu lhe dava um pouco de carinho (não queria perder meu bajulador), mas logo voltava aos meus afazeres. Assim, mantive meu gato ao meu entorno até que eu terminei de me arrumar e saí, sem em nenhum momento lhe dar, verdadeiramente, atenção. Foi então que percebi que fui uma filha da puta com meu Oliver, comparável a tantos filhos da puta por aí.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Antes, Durante e Depois

Demorei para escrever este post porque estava tentando fazer uma conexão entre o "antes" e o "durante", para poder construir um "depois". Tive de fazer uma extensa análise sobre panos de fundo que vem sendo tecidos, não hoje, e nem ontem, mas durante meses e anos. Depois, conectar estes panos ao atual desdobramento das manifestações, para assim construir uma previsão, ou, talvez, apenas um chute fundamentado.


Antes

Vamos analisar o pano de fundo dos atuais protestos: Insatisfação econômica devido à uma sensação de descontrole inflacionário, extremo descontentamento com a política e suas organizações, fortalecimento do discurso conservador, desconhecimento do funcionamento do Estado por parte de uma grande maioria e "endeusamento" do poder judiciário.

Este "painel de sensações" está sendo construído há anos pelos tecelões da opinião brasileira: A grande mídia. Vamos discorrer sobre esta "esplendorosa" construção midiática:

  • Inflação

    A inflação subiu? Subiu. Mas não estamos no descontrole que a mídia insiste em nos empurrar goela abaixo. O índice de inflação está batendo no teto da meta anual, MAS AINDA ESTÁ DENTRO DA META, e, portanto, sob controle. Entretanto, há tempos não se batia tanto nesta tecla, como se estivéssemos a níveis galopantes, rumo ao precipício pré-plano real. Sinceramente, a impressão que tenho é de uma imensa má vontade por parte da mídia e do empresariado em colaborar com as medidas econômicas do Governo. Pressionou-se, pressionou-se, pressionou-se, até que o BC cedeu e elevou a taxa Selic em 0,5, depois de um aumento de 0,25. Medida neoliberal e APENAS antiinflacionária, prejudicial ao desenvolvimento econômico e à população, e um alívio para o empresariado (é a essas pessoas que você dá ouvidos). O cúmulo do absurdo do sensacionalismo midiático foi o festival feito em torno da alta do tomate, cujo assunto virou até capa de revista, sendo que o aumento estava muito mais vinculado à questões de safra do que à inflação. Podemos ver que há um IMENSO abismo na diferença entre a inflação REAL e a inflação IMAGINÁRIA. Para os desavisados, a inflação "galopante" dos dias de hoje é quase metade da que tínhamos nos dias de FHC.

  • Descontentamento Político e Superlativização do Judiciário

    Este é outro tópico em que a mídia nacional vem trabalhando árduamente. O "escândalo do mensalão", que nem de longe é o maior caso de corrupção do Brasil, é uma prova disso. Bateram, bateram, bateram nesta tecla, entretanto a aprovação do Governo Dilma continuava altíssima. Que fazer então? Ressucitar o fantasma inflacionário, que ainda assombra os que lembram ver seu salário diminuindo com o passar da semana. Empenhados em passar a imagem de que "políticos não prestam", os veículos de comunicação em massa precisam de um salvador da Pátria. E quem melhor do que o "Batman do judiciário", Joaquim Barbosa? Os mesmos veículos que tem trabalhado no "Show do Mensalão" construíram o endeusamento do Presidente do STF, e fortaleceram o próprio órgão, como se juristas autoritários e burocráticos fossem a solução de todos nossos problemas.
    O STF, que, a meu ver, defende quase sempre interesses elitistas, tem ganhado cada vez mais poder, tanto por respaldo midiático, quanto pelas mãos-de-ferro centralizadoras e ansiosas de poder de seu presidente. A prova maior de que não se defende a democracia nem no judiciário e nem na mídia, é a intensa repulsa pela PEC 33, projeto que prevê maior participação popular nas decisões referentes à inconstitucionalidade de leis, e, não, não tira este poder do judiciário, apenas verifica que os juízes são humanos e erram - se a grande maioria dos ministros concentirem, a decisão é acatada; mas se houver uma divisão muito grande de opiniões, há de se ter outros pontos de vista.

  • Fortalecimento do Pensamento Conservador

    Ultimamente, temos dado trela demais à Malafaias e Felicianos e isso fez dar força à seu discurso. Cada vez mais, surgem grupos extremados e com discursos de ódio, que se sentem legitimados ao ver um deputado utilizando-se do mesmo discurso em rede nacional, e nada acontecer. Não que eu ache que isto tenha sido proposital da mídia (desta vez), mas esta aumentou o alcance e a "moral" de tal discurso. Hoje, como há muito não se via, os Direitos Humanos são postos em xeque por discursos cada vez mais difundidos na sociedade, baseados na defensão da "família, da moral e dos bons costumes".

  • Desconhecimento do Funcionamento do Estado

    Esta eu responsabilizo Estado e mídia, meio-a-meio. Primeiro porque é simplesmente absurdo que não se ensine o funcionamento do Estado Brasileiro nas escolas. Como pode alguém viver num Estado, para o qual paga impostos, utiliza serviços, elege representantes, e não conhecer seu funcionamento? A parte da mídia, é que esta se aproveita do desconhecimento popular para colocar a culpa de todos os padeceres do país em que lhe for conveniente, induzindo, assim, ao erro da população na cobrança de pautas.

Durante

Em meio ao pano de fundo construído durante anos, o Movimento Passe Livre, faz manifestações contra o aumento da tarifa do transporte público, como de praxe. O primeiro ato realizado no dia 06/06, teve aderência pouco maior do que o normal (nada alarmante). Anormal mesmo, foi a cobertura midiática - que de uma nota de rodapé passou para capa. Na tentativa de fortalecer o sentimento de insatisfação com a gestão do PT na Prefeitura de São Paulo, a atenção dada às manifestações, ainda que no sentido de crítica (onde já se viu, mídia elitista apoiar movimento popular?), surtiu efeito propagandístico e ajudou a aumentar exponencialmente o número de participantes nos demais atos, chegando à 20 mil em sua quarta versão.

O Quarto Ato merece um parágrafo só dele: Movida por sentimento de vingança, a polícia de São Paulo organizou um esquema repressivo digno de ditadura, com direito à agressões, policiais não identificados, prisões arbitrárias, abuso de poder e extrema violência. 15 jornalistas saíram feridos. Diante de um número de manifestantes grande e crescente, e da violência policial que já se mostrava em sua própria redação, a imprensa não teve mais como esconder: Mudou o tom, e o foco para a repressão. Curiosamente, dois dias depois, o Governador do Estado, Geraldo Alckmin, que tinha elogiado o trabalho da polícia na quinta-feira sangrenta, vira um pacifista de mãos cheias, convocando o MPL para reunião com o secretário de segurança, liberando quaisquer vias para movimentação e proibindo o uso de balas de borracha pela PM.

Temos então uma comoção nacional. E é neste ritmo que se dá o Quinto Ato, na segunda-feira (17/06): A Paulista em festa, os protestos espalhados pelo Brasil - 200 mil (não se enganem com esses "65 mil" do Datafolha) saem pelas ruas de São Paulo. Bandeiras brancas se agitam nas janelas dos apartamentos. A polícia virou paisagem. O grito que ecoa não é mais o de luta - é de paz, negação de partidos e de "vandalismo" e pelo Impeachment da Presidente. Galera, mas e o aumento da passag... EU SOU BRASILEIRO, COM MUITO ORGULHO, COM MUITO AMOR!

Terça, segue-se o mesmo ritmo de final de Copa do Mundo na Paulista. A pauta... que pauta? Poucos são os que tem a cabeça no lugar. A pauta agora é a Copa, a Educação, a Saúde, a Corrupção, a PEC 37, a Dilma e tantas mais quantas a Veja disser. Cresce o discurso nacionalista. Cresce ainda mais o discurso "apartidarista" (ou antipartidarista?). Patrimônios públicos e privados são depredados e são efetuados saques (?). "Aonde estava a PM?", você me pergunta. "Olhando", eu te respondo. A mesma PM dos abusos de quinta, ficou apenas observando enquanto o caos se construía no Centro de São Paulo. O Choque, demorou 2 horas para chegar, depois de ser acionado pela Prefeitura.

Então, no Sétimo, e último, Grande Ato os partidos de esquerda e movimentos sociais (incluindo o próprio Passe Livre) foram hostilizados por grupos de skinheads e nacionalistas radicais, que tinham o apoio da massa cara-pintada e festiva. Bandeira, só pode a do Brasil. No final das contas, o movimento foi expulso do movimento. O criatura voltou-se contra o criador.

Fazendo uma rápida análise do "Durante": Não tendo mais como esconder ou botar panos quentes, a mídia toma a posição mais inteligente: juntar-se a nós. Mas não sem reger a pauta, é claro. A mídia direitista conseguiu pegar uma manifestação de esquerda, impor pautas de direita e mobilizar uma grande massa para defender suas pautas e sua ideologia, mascarada  de não-ideologia. No final, resolveu-se o problema dos vândalos e arruaceiros da esquerda. Agora temos respeitáveis cidadãos e brasileiros que lutam pelos seus direitos (ou pelos de outrém?).


... E, finalmente, o Depois

É difícil de antecipar os próximos passos, mas tenho teorias que, entretanto, dependem das ações do MPL.

Caso o MPL não venha a organizar mais atos, contra o que quer que seja, este movimento vai se dissipar logo - tão rápido quanto surgiu. Sem a esquerda e os movimentos que ajudaram a formá-lo, não terão forças para se reorganizar, e tudo voltará ao normal (exceto o valor das passagem, amém!).

Se o MPL continuar a fazer atos (o mais provável), os rumos são incertos. Poderemos ter um descontrole gerado pela falta de conhecimento do funcionalismo do estado, intensa instisfação e ausência de pautas definidas. Cabe agora ao MPL definir as pautas e conseguir guiar esta multidão perdida que chamaram para si.

A postura do MPL, aliás, é algo que me preocupa muito. O Movimento tem uma rejeição à esta grande responsabilidade, e recusa-se a tomar para si a posição de liderança, baseando-se no fato de que formam "um movimento horizontal e com pautas definidas, e que nada tem a ver com a movimentação de outras pessoas". MPL, querendo ou não, vocês JÁ assumiram a liderança, e negá-la pode ter sérias consequências. Seria muito mais inteligente, como movimento, como esquerda e como militantes comprometidos, assumir esta posição que, querendo vocês ou não, já lhes cabe. Quem sabe assim, não convertemos os cabeça-de-Globo em cabeças pensantes? Poderemos conquistar muitas coisas juntos, unidos sob um mesmo objetivo. De nada vale muita revolta no coração e pouca coisa na cabeça.

Quanto aos rumores de "golpe": Confesso que fiquei receosa. De fato, parecia (e muito) que a história se repetiria. Mas, hoje, depois de conversas, reflexões e com a cabeça no lugar, tenho duas possibilidades: Um possível golpe político, disfarçado de "revolta popular", que poderia ocorrer caso a situação saia do controle, ou, o mais provável na minha opinião, um golpe de "opinião pública", desses que nossa imprensa dá todos os dias, em prol de seus objetivos. Já descartei a teoria do "golpe militar".

Baseado em todos estes pontos, proponho uma reflexão: Até quando a mídia terá a capacidade de determinar os rumos deste país?

quinta-feira, 20 de junho de 2013

A Despolitização de um Movimento Político

Quem esteve acompanhando de verdade, atentamente, e participando das manifestações pela redução da tarifa do transporte público (principalmente em São Paulo), pôde notar um fenômeno: A despolitização de um movimento político, ou "coxinhazação" do movimento.

Tendo início com movimento de ideários esquerdistas, como o próprio Passe Livre, associados ou não à partidos, os manifestantes tinham ideais e viés político. Mas, nem tudo são flores. A intensa repressão da PM (que NÃO COMEÇOU NA QUINTA PASSADA, embora tenha se intensificado nesta), atingiu inclusive jornalistas, e a grande mídia, que antes tarjava os manifestantes de "vândalos", na tentativa de desqualificar o movimento, mudou o discurso, voltando-se para a repressão policial. Novamente: nem tudo são flores. A elite não mudaria de lado, assim, de um dia para o outro. Vendo que não teria como ocultar a repressão por parte do Estado, e nem como impedir que a mobilização tomasse força, tomaram a atitude mais inteligente: "Se não pode com eles, junte-se a eles, e manipule-os para servirem a seus interesses.". OPS! Falei demais! Desculpa, Folha, Globo, Estadão e por aí vai.

Sem mais nem menos, presenciamos o maior "boom" de manifestantes: De quinta para segunda, 20 mil se transformaram em 200. Gente com cartaz "Não ao vandalismo", brigando com baderneiros e vândalos depredadores do patrimônio público, pedindo pela derrubada da PEC 37, pela prisão dos marginais-mirins que assolam a segurança de nossos lares nos Jardins, pelo fim da violência, da corrupção, da copa, dos partidos políticos, e da Globo. Incoerência? IMAGINA. Gente que nem sabe o que significa a abreviação "PEC", que nem sabe dos encargos do MP, que é reaçinha leitor de Folha, Estadão, quiçá Veja,  foi às ruas influenciados por estes veículos, levantar bandeiras da elite, gritando "Abaixo a Globo".

Não que eu não ache LINDO o povo saindo às ruas. Acho. É inspirador, é um sonho. Também acho que temos de continuar lutando. Com diferenças ideológicas ou não, fazemos parte da mesma massa, do mesmo povo, e partilhamos o mesmo cansaço. Mas há de se ter discernimento sobre o quê e como protestar.

Partido político, SIM. São os partidos políticos de esquerda que sempre estão presentes nas manifestações. Que levam o ideário e a luta às ruas. Não que todos do movimento precisem estar filiados à algum (eu mesma, não tenho filiação qualquer), mas estes estão sempre presentes na luta nossa de cada dia. É engraçado como as bandeiras levantadas (no início) eram de PSTU e PSOL, até então aceitas, e quando a mídia entra no meio, repudiadas.

A manifestação NÃO É FESTA! É LUTA! Vemos a mídia elitista tentando transformar a luta do povo, em festa burguesa! A manifestação que tem, sim, que incomodar, causar o caos e a desordem, está sendo convertida em festinha ordeira e PASSIVA. Isso mesmo, PASSIVA. Pacifismo está sendo confundido com passivismo.

Percebemos esta "desvirtuação" da manifestação pelos gritos de ordem, inclusive. Quinta-feira, o clima era outro. Os ideais, mais comuns. A luta era luta, e era a mesma. Segunda e terça era festa, sem ideais definidos, e com uma massa, essa sim de manobra, que estava defendendo os interesses de Jabores e Datenas, dando a entender uma insatisfação geral com a "roubalheira do PT". Gente pedindo "impeachment da Dilma". Cara, BASEADO EM QUÊ, você está dizendo isso? Não que eu seja admiradora da presidente, mas, não sou cabecinha de Ostra, também! Pra quem está levantando a bandeira do "Contra Corrupção", acho válido, desde que você se informe: Ranking de corrupção por partido divulgado pelo TSE.

Se estivéssemos no início do Século XX, diria que esse movimento, que começou como "uma intentona comunista", ganhou ares de "intentona integralista". Deu pra perceber a desvirtuação? É claro, que estou jogando a situação um século para trás, portanto há um quê de brincadeira e generalização, mas a ideia é basicamente essa.

Coxinhas, por favor, voltem a criticar os baderneiros e arruaceiros politizados, do conforto de seus lares, ou tomem consciência e acordem, de fato, para a política e para a luta.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Clube da Esquina III

Hoje, ouvindo Clube da Esquina II, do Lô Borges, percebi que nunca tinha realmente entendido a música. Vivendo o que tenho vivido nessas últimas 2 semanas, vejo seu real significado, e chego a pensar se não estamos num Clube da Esquina III.

Não sei se todos entenderão o que digo. Não sei se todos ficarão com os olhos marejados ao ouvirem a música com atenção. Talvez seja pelo envolvimento, pelos conflitos, pelos sonhos e pela possibilidade de realizá-los.

Devo confessar que estou extasiada com esta agitação politica. Eu nasci pra isso. Nasci pra luta. Sempre dizia que queria ter vivido o período da Ditadura, para lutar com a resistência, mudar o país com eles! Mas, no fundo, sempre tinha espaço pra dúvida: Será que eu lutaria mesmo? Será que não me deixaria acuar pelo medo, pela repressão? Será que não seria apenas mais uma acomodada insatisfeita? Hoje, principalmente depois de quinta passada, eu sei que não. Que eu lutaria, até o fim. Que se apanhasse, seria com honra, e se fosse presa, com a cabeça erguida. Porque o que me move, não é palpável - É sonho, e sonhos não envelhecem.

Clube da Esquina II - Lô Borges

Porque se chamava moço
Também se chamava estrada
Viagem de ventania
Nem lembra se olhou pra trás
Ao primeiro passo, asso, asso
Asso, asso, asso, asso, asso, asso
Porque se chamavam homens
Também se chamavam sonhos
E sonhos não envelhecem
Em meio a tantos gases lacrimogênios
Ficam calmos, calmos
Calmos, calmos, calmos...
E lá se vai mais um dia...

E basta contar compasso
E basta contar consigo
Que a chama não tem pavio
De tudo se faz canção
E o coração na curva
De um rio, rio, rio, rio, rio
E lá se vai...
Mais um dia...

E o rio de asfalto e gente
Entorna pelas ladeiras
Entope o meio-fio
Esquina mais de um milhão
Quero ver então a gente, gente
Gente, gente, gente, gente, gente
E lá se vai...

terça-feira, 18 de junho de 2013

Imagine

Ontem, o sonho começou a virar realidade. Imagine todas as pessoas lutando juntas, mostrando que EXISTEM, contra um Estado opressor, contra um capital que nos joga migalhas, contra uma mídia tedenciosa... Imagine. Imagine o povo tamando o congresso e os palácios do governo. Imagine que somos muito maiores e maior fortes que a repressão. Imagine. Imagine que esse dia chegou.

Talvez digam que somos apenas sonhadores, mas sabemos que não somos os únicos! Olhamos, do alto da Brigadeiro Luís Antônio, a multidão que se estende.Recebemos mensagens de amigos que ainda estão na Juscelino Kubitschek, ligações de quem está na Ponte Estaiada, informações de que, em Brasília, finalmente, o CONGRESSO É NOSSO!

Sabemos, que ainda há muito a definir. Muitas pessoas não tem a visão política do que querem, do que é preciso, do caminho. Mas saber que todos tem a mesma vontade, todos tem o mesmo sonho, todos imaginamos e sonhamos juntos, é inspirador. Imaginamos tanto, e com tanta força, que está começando a virar realidade. Sigamos, então, imaginando, sonhando, lutando e realizando, e que nós não nos deixemos influenciar por oportunistas, que, misteriosamente, mudaram de lado. Hasta la victoria, siempre!

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Relatos de uma manifestante

Tenho orgulho de dizer que estava ontem na manifestação contra o aumento da passagem, no Centro de São Paulo. Tenho orgulho de dizer que ainda sinto o cheiro de vinagre. De falar que estou cansada, e que minha cabeça ainda dói. E tenho mais orgulho ainda de dizer que o que dói mais é a indignação, a revolta.

Ontem presenciei um massacre, desses dignos de ditadura. Quero expressar minha experiência aqui, para que todos vejam quem são os verdadeiros "vândalos".

30 - esse era o saldo de presos antes da manifestação começar. 30 pessoas foram presas nas ruas ou estações de metrô por portarem VINAGRE, com acusação de FORMAÇÃO DE QUADRILHA. Logo quando cheguei ao local, já vi um manifestante sendo arrastado pelos policiais, e os jornalistas carniceiros indo atrás, em busca de uma boa matéria.

Às 17h, o Theatro Municipal já estava cheio, tomado pela multidão que gritava pacificamente "Vem pra rua, vem: Contra o aumento!". Saímos em direção à Praça da República, pela rua Barão de Itapetininga, por volta das 18h. Muitos de nós (eu, por exemplo) portávamos flores, em sinal de paz. Seguimos em direção à Rua da Consolação, passando pela Praça Roosevelt. Acabei, por esperar um amigo, e fiquei no final do bloco, onde pude ver a polícia "sumindo" com manifestantes na surdina (eles simplesmente chegavam num cara distraído e sozinho, agarravam-no e o saíam arrastando).


Enfim, chegamos às portas da Rua da Consolação, com gritos de "sem violência". Um grupo da Tropa de Choque nos esperava, e, sem mais nem menos, começou a nos atacar com bombas de gás lacrimogêneo e pimenta. Saímos correndo no sentido oposto, parando em frente à Praça Roosevelt, onde demos de cara com outro grupo do Choque, vindo em nossa direção e atirando mais bombas - fôramos encurralados na Roosevelt. Tivemos que subir correndo e ocupar à praça, com o choque vindo atrás. Ao final da subida, descemos em direção à Augusta. A esta hora o caos já estava instaurado: um ônibus estacionado foi pichado e incendiado.Com o Choque dos dois lados da rua, pensamos em subir a Rua Martinho Prado, mas já um terceiro grupo do Choque vinha descendo. Dessa vez, já descia atirando. Saímos numa grande multidão, em direção à Avenida 9 de Julho, para chegarmos à Paulista.

Já na 9 de Julho, dividimo-nos por dois caminhos: um seguia pela Avenida, e o outro desviava para a Augusta: Permaneci na Avenida. Quando na Altura do Viaduto Dr. Plínio de Queiroz, recebemos a notícia de quem já havia chegado: "A cavalaria está nos aguardando na Paulista". Um carro da ROTA, para no viaduto, aponta-nos seus belos fuzis e diz: "Continuem andando! Não é pra parar!". Foi quando tudo ficou claro: Nos dispersaram na Roosevelt, e nos estavam tocando, como a quem toca gado, para a Paulista, onde nos cercariam e a pancadaria de verdade teria início. Vimos mais viaturas descendo em direção à 9 de Julho. Desviamos em uma ruela e nos perdemos da multidão. Paramos num bar, onde havia transmissão ao vivo. Vimos a chegada à Paulista, e a pancadaria da PM. Encontramos outro grupo, não tão grande, indo em direção à Paulista - aderimos. Sabíamos que íamos apanhar, sabíamos desde o início. Mas que apanhemos resistindo e gritando, então!

Neste grupo a que aderimos, ficou claro que alguns manifestantes perderam o foco: saíram depredando ruas de bairros residencias, sem motivo. Quer depredar? Depreda Centro e via principal. Bairro residencial ninguém liga, só vai causar transtorno aos moradores. Desgarramo-nos novamente, devido às ações descontroladas. Decidimos chegar sozinhos à Paulista. Voltamos para a 9 de Julho, e estávamos indo em direção à ela, quando encontramos manifestantes que de lá retornavam: "A polícia esperou chegarmos lá, os dois grupos, para descer a porrada! Tinha muita bomba, e muita polícia! Fecharam as saídas - nos encurralaram.", nos contaram. Seguimos andando em direção à Paulista, e encontramos outro grupo que também voltava de lá e nos disseram: "Não vão. Fecharam a Paulista. Os PMs tão batendo em todo mundo que se aproxima. Eles nem querem saber quem é. Só vão batendo e prendendo. Grupo pequeno, como vocês, não tem chance.". Recebemos a ligação do pai de um amigo nosso, que estava na Alameda Santos: "A PM tocou o pessoal da Paulista pra cá. Encurralou. Eles tão correndo, a polícia atrás batendo e jogando bomba. Tem camburão e ônibus aguardando pra levar preso. Atrás da polícia, tem um caminhão de lixo, já limpando tudo.". Ficou mais do que claro o nível de organização e tática repressiva da polícia: Dividir, tocar, encurralar, porrada, prisão e limpeza.

Voltamos então à Praça Roosevelt, pra ver se ainda achávamos alguma resistência desgarrada. E qual não foi a nossa surpresa, quando chegamos e encontramos tudo na mais perfeita paz? As ruas limpas, sem vestígios da "batalha campal" ali travada. Skatistas fazendo suas manobras, pessoas nos bares, o ônibus já havia sido retirado e alguns carros da PM continuavam no local. É a polícia mostrando ao capital que aqui não é Europa, não tem essa de manifestação e bem estar social - a banda toca conforme à música do Estado, e está tudo sob controle.

Derrotados, voltamos à Praça da República, onde nos recolhemos à nossa insignificante posição de povo reprimido e indignado. Mais do que o cansaço, a fome (que nem era sentida, de tanta adrenalina), e o cheiro de vinagre, levávamos para casa a indignação, o ódio, a raiva e a revolta.

Estes vídeos mostram razoavelmente bem como foi a ação da PM. Dou destaque ao primeiro:



Tendo fim o meu relato, gostaria de expressar alguns pontos: 

Como já disse, e não me canso de dizer, foi a maior covardia e massacre que já presenciei. Nós estávamos pacíficos e fomos atacados. Fomos tocados para sermos massacrados. Tivemos dezenas de prisões arbitrárias, com acusação de "formação de quadrilha", algumas das quais, foram classificadas como "inafiançáveis" ou com fiança de 20 MIL. Chamaram GCM, PM (com 3 helicópteros), Rota, GOE, Tática, Cavalaria e Tropa de Choque para um grupo de manifestantes que clamavam por "Não violência", quase que pedindo, pois sabíamos da nossa fragilidade.

O Alckmin é um fascista. Disso todos nós estamos cansados de saber. A PM é um órgão repressor, disso também estamos cansados de saber. Mas muito me admira que o ocorrido tenha se passado numa cidade governada por um membro de um partido (teoricamente) de esquerda, cujo militantes engrossavam o grupo de manifestantes. Admira-me mais ainda que isto esteja se passando num país que é comandado por uma ex-guerrilheira, que lutou, sofreu repressão e foi torturada em nome de uma democracia que hoje não temos! E mais, como um amigo meu fez questão de lembrar: "Aquelas balas de borracha são compradas com o nosso dinheiro, e usadas contra nós.".

Já está mais do que claro que essas manifestações não são apenas por 20 centavos. Não é apenas o aumento da tarifa. Isso foi o estopim - a gota d'água. Da mesma maneira que as manifestações na Turquia não são SÓ por causa de um parque, e a Revolta da Vacina não foi só por causa da vacina. O povo já está cansado de ser reprimido pelo Estado que defende o capital em detrimento de sua própria população. Sustentamos uma organização que tem como objetivo, desde seus primórdios, a manutenção da opressão e da diferença de classes. O Estado foi criado para servir ao Capital. A polícia foi criada para manter a "ordem" vigente, onde uns ganham às custas dos outros. Vivemos numa farsa de democracia, onde tudo, TUDO, é feito para acreditarmos que esta é a única verdade - jornais, consumismo, alienação, "educação", tudo! No final das contas, temos de lutar contra um Estado opressor, que deveria nos representar, usando paus, pedras, garrafas plásticas e vinagre, enquanto o inimigo, que deveria nos proteger, vem com armamento e tática de guerra! E o pior é que a alienação dá tão certo, e produz tantos frutos, que nós, que lutamos pelos direitos de TODOS, somos repudiados e tidos com "vândalos desgarrados" pela maior parte da população. Somos o "povo vilão do povo", nessa sociedade atingida pela Síndrome de Estocolmo.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

O governo PSDBista de Dilma

Complete a frase: Serra está para FHC, assim como Dilma está para .................. ? Se você respondeu Lula, errou. Dilma está muito mais para FHC do que para Lula.

O governo Lula foi, de certa forma, inspirador. Surpreendeu na questão econômica (e muito) e com alguns programas sociais, e nas pautas em que não o fez (como nos direitos humanos, questão agrária e indígena), também não retrocedeu. Nos 8 anos de Lula, tivemos, de fato, uma política econômica estruturada, e não medidas e políticas paliativas e rasas. A economia foi vista como um todo e não como pontos isolados de problemas econômicos. O diálogo com minorias foi mantido, e obtivemos avanços na consolidação de órgãos como a FUNAI, a Polícia Federal, o STF, o MP e o BC.

Já o governo Dilma está sendo frustrante. Decepcionante. Não falo apenas na questão econômica - falo TAMBÉM na questão econômica. A direita está insatisfeita com a inflação e com o "PIBinho" (estou insatisfeita com isso também, é claro que não é uma boa coisa), mas o real motivo da minha decepção, como já frisei em outro post, são as concessões. Dilma cedeu à pressão do empresariado ao elevar a taxa selic em 0,5, depois de um aumento de 0,25. Isso representa uma política antiinflacionária, indo na contramão de uma política econômica que visa, além da estabilização da inflação, um crescimento saudável. Como já foi dito anteriormente, houve um INACREDITÁVEL retrocesso nos Direitos Humanos. Neste caso, Dilma foi além de FHC. Homologou APENAS 10 territórios indígenas em seus mandato, contra 31, no mandato mais fraco do Tucano. Dilma ainda está retrocedendo na consolidação da FUNAI, levando-a de volta ao descrédito da era FHC (ou pior). Quer mais do que os projetos cada vez mais conservadores lançados na câmara por bancadas que não são barradas pois fazem a vez de base presidencial?

Sim, eu sei que em suas épocas de ministra Dilma foi "mãe" do PAC. Sei que Belo Monte não começou agora. Mas o tamanho das concessões, das aderências à neoliberalismos desesperados e do descaso com minorias étnicas e culturais em busca de um avanço econômico, deixa Dilma no patamar de FHC. Desapontador, para quem foi "apadrinhada" por Lula. Sinceramente, não sei a que tanto a elite ainda faz oposição a ela. Não é a pessoa, é o partido. Muda de partido, Dilma, que tá tudo certo.

Algumas matérias para base:
PS: Hoje não falarei das manifestações contra a tarifa e nem "Dia dos Namorados". Sou do-contra memo!

terça-feira, 11 de junho de 2013

Bandeide

Lembra, há muito tempo atrás, quando estávamos com um curativo e ficávamos tentando tirá-lo aos pouquinhos, pra não doer, e nossa mãe dizia "Tira de uma vez, que dói menos"? Quando ela perdia a paciência com a demora em tirar o bandeide, se metia a puxar de uma vez, e nós gritávamos "NÃO! Espera! Deixa que eu tiro, deixa que eu tiro..."? É engraçado como parece que até hoje estamos tirando o bandeide devagarinho.

Cada vez em que não nos jogamos, com medo de quebrar a cara, cada vez que ficamos no "não sei", que enrolamos, que ficamos em cima do muro, que empurramos uma situação com a barriga, que não arriscamos, estamos puxando o bandeide devagarinho.

Temos tanto medo da dor intensa do puxão, que isso nos impede de resolver situações, de nos libertarmos do bandeide, de sermos felizes logo de uma vez. Porque ser feliz dá um medo filho da puta. Então, com medo da dor intensa, vamos perpetuando as pequenas "dorezinhas", os pequenos incômodos, puxando pontinha por pontinha e não acabando nunca.

Nos privamos de nos livrarmos logo deste incômodo bandeide e irmos pra rua, jogar bola de novo, e, assim, no meio de uma brincadeira, nos ralarmos de novo e ganharmos um novo curativo. Mas a vida é assim: um ciclo de brincadeiras, quedas e curativos. E quanto mais demoramos pra nos livrar dos curativos, mais demoramos pra começar uma nova brincadeira.

Talvez seja hora de darmos aquele puxão, que vai doer, mas vai passar logo. Mas, peraí, peraí! Deixa que eu tiro sozinha...

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Estatuto do Nascituro: Não é sobre o aborto - É sobre a mulher


Aprovado nesta quarta-feira (5/06), pela Comissão de Finanças da Câmara, o "Estatuto do Nascituro" visa o fim do aborto, mas representa o fim de direitos da mulher. Idealizado pelos homens e deputados Luiz Bassuma (PT-BA) e Miguel Martini (PHS-MG) e tendo como relator o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o Estatuto não só CRIMINALIZA (isso mesmo, com pena prevista de detenção) o aborto tanto feito em clínica, quanto o através de homeopatia, como também o faz com a apologia ao aborto (você, que assim como eu, não esconde sua opinião quanto ao assunto, poderá ser preso!). O mais impressionante, no entanto, não é a criminalização da liberdade de expressão ou a transformação do corpo da mulher numa "chocadeira" do Estado, é a atenuação com relação ao estupro, onde o projeto, além de praticamente "legitimar" o ato, ainda o perpetua, obrigando a mulher a manter vínculos com seu agressor e o elevando ao status de "pai". Eduardo Cunha afirma que, em caso de estupro, o aborto ainda será uma opção, entretanto, podemos ver pelo próprio projeto a tentativa de ilegalização deste direito garantido pela Constituição:

Art. 5º Nenhum nascituro será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, sendo punido, na forma da lei, qualquer atentado, por ação ou omissão, à expectativa dos seus direitos.

Art. 12º É vedado ao Estado e aos particulares causar qualquer dano ao nascituro em razão de um ato delituoso cometido por algum de seus genitores.

Art. 13º O nascituro concebido em um ato de violência sexual não sofrerá qualquer discriminação ou restrição de direitos, assegurando-lhe, ainda, os seguintes:

I – direito prioritário à assistência pré-natal, com acompanhamento psicológico da gestante;

II – direito a pensão alimentícia equivalente a 1 (um) salário mínimo, até que complete dezoito anos;

III – direito prioritário à adoção, caso a mãe não queira assumir a criança após o nascimento.

Parágrafo único. Se for identificado o genitor, será ele o responsável pela pensão alimentícia a que se refere o inciso II deste artigo; se não for identificado, ou se for insolvente, a obrigação recairá sobre o Estado.

Baseando-se nos direitos garantidos pelo Art. 5º, que foram ratificados à "nascituros" provenientes de violência sexual no Art. 13º, e claramente expostos no Art. 12º, vê-se bem a tentativa de proibição de aborto em caso de estupro. É necessário ainda, chamar a atenção à cláusula II  e ao parágrafo único, onde, além de incentivar o nascimento e criação do fruto de uma violência, eleva o estuprador ao status de "pai", obrigando a vítima a manter um vínculo quase que vitalício com seu agressor, perpetuando assim, esta violência.
A cláusula III, frisa o direito da mãe de deixar a criança para adoção. Quer dizer, além de praticamente OBRIGAR a mãe a prosseguir com uma gravidez completamente indesejada, ainda a maioria das crianças ficarão para adoção (sejamos francos, quantas mães quererão ficar com seus filhos?). Parabéns, deputados! Os orfanatos e abrigos estão mesmo vazios, precisamos preenchê-los um pouquinho.

 

Outro direito cerceado pelo Estatuto do Nascituro, baseados no Art. 5º, 9º e 10º (abaixo), é o de aborto em casos irrecuperáveis, como o de anencefalia. Agora, a mulher será OBRIGADA a prosseguir com uma gravidez que gerará um pequeno defuntozinho ao final de nove meses. Além de pôr em risco a vida da mãe na hora do parto.

Art. 9º É vedado ao Estado e aos particulares discriminar o nascituro, privando-o da expectativa de algum direito, em razão do sexo, da idade, da etnia, da origem, da deficiência física ou mental ou da probabilidade de sobrevida.

Art. 10º O nascituro deficiente terá à sua disposição todos os meios terapêuticos e profiláticos existentes para prevenir, reparar ou minimizar sua deficiências, haja ou não expectativa de sobrevida extra-uterina.

Muitos ainda não devem ter se convencido da "Obrigatoriedade" da gestação. Vamos para os artigos que tratam da criminialização:

Art. 23 Causar culposamente a morte de nascituro. Pena – detenção de 1 (um) a 3 (três) anos.

Art. 24 Anunciar processo, substância ou objeto destinado a provocar aborto: Pena – detenção de 1 (um) a 2 (dois) anos e multa.

Art. 25 Congelar, manipular ou utilizar nascituro como material de experimentação: Pena – Detenção de 1 (um) a 3 (três) anos e multa. ( Ou seja, adeus pesquisa com células-tronco! Olá, Câncer, paralisia, e doenças irrecuperáveis!).

Art. 26 Referir-se ao nascituro com palavras ou expressões manifestamente depreciativas: Pena – Detenção de 1 (um) a 6 (seis) meses e multa. (Pff. Rafinha Bastos dançou, nessa! hahaha)

Art. 28 Fazer publicamente apologia do aborto ou de quem o praticou, ou incitar publicamente a sua prática: Pena – Detenção de 6 (seis) meses a 1 (um) ano e multa.  (Se isso for aprovado, em breve, postarei de uma penitenciária feminina).

Art. 29 Induzir mulher grávida a praticar aborto ou oferecer-lhe ocasião par a que o pratique: Pena – Detenção de 1 (um) a 2 (dois) anos e multa.

Contagem final: Criminalização do aborto (a criminosa agora é a vítima, confere, produção?), das pesquisas com células-tronco, Ser contra o aborto (E a constitucionalidade, cadê?) e xingar o embrião (Essa é só engraçada, de tão besta).

Ainda que não tenha ficado claro o tamanho da atrocidade, e tire-se isso como "interpretação" das leis, cito a justificativa dos autores do Estatuto:

"         A proliferação de abusos com seres humanos não nascidos, incluindo a manipulação, o congelamento, o descarte e o comércio de embriões humanos, a condenação de bebês à morte por causa de deficiências físicas ou por causa de crime cometido por seus pais, os planos de que bebês sejam clonados e mortos com o único fim de serem suas células transplantadas para adultos doentes, tudo isso requer que, a exemplo de outros países como a Itália, seja promulgada uma lei que ponha um “basta” a tamanhas atrocidades.
         (...) por fim, enquadra-se o aborto entre os crimes hediondos."

Um crime hediondo! Hediondo! Mulheres criminosas, que não cumprem seu único papel nesta vida: gerar filhos saudáveis!

Estes senhores e a juíza (uma mulher!) citada no projeto, que fazem defesa de tal atrocidade (porque, isso sim, é uma atrocidade), não fazem a menor ideia de biologia e de métodos de aborto. O CFM (Conselho Federal de Medicina) já recomendou a liberação do aborto até a 12ª semana, onde o embrião (e posteriormente, feto) é apenas um aglomerado de células, sem rede neural ou sistema nervoso formado! Um aglomerado de células! O processo de aborto descrito na defesa do projeto é de um feto já formado, e os abortos feito em casos de estupro, são feitos muito antes da formação completa do feto.

Para os que não estão entendendo o termo, de acordo com o projeto, "nascituro" é o embrião: Ou seja, juntou gameta, fecundou o óvulo, já era - vai ter que ter a criança. Não sei se só a mim ocorreu este pensamento, mas, de acordo com essa definição, logo as "pílulas do dia seguinte" seriam tiradas de circulação. Isso é um total retrocesso nos direitos femininos garantidos desde o anticoncepcional! Deixaremos as igrejas influenciarem as nossas vidas a ponto de nos tirarem o direito aos métodos contraceptivos, também? Porque, a meu ver, daqui pra ali é um pulo!

As pessoas acham que esse projeto tem a ver com o aborto. Não tem nada a ver com o aborto. A reprovação deste, deixa as coisas como estão, NÃO LEGALIZA O ABORTO nos casos em que já não se é permitido pela Constituição. Você pode ser contra ou a favor do aborto. Mas este projeto não é sobre o aborto - é sobre a mulher.

Leia o Projeto completo aqui.

Outros links para leitura:http://www.cartacapital.com.br/politica/2018bolsa-estupro2019-e-risco-de-transformar-vitima-em-criminosa-1925.html/view
http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,protesto-contra-estatuto-do-nascituro-em-sao-paulo-e-organizado-nas-redes-sociais,1040807,0.htm


sábado, 8 de junho de 2013

Deus lhe pague!

Uma coisa me chamou muito a atenção em todos estes protestos contra o aumento tarifário: A cabecinha reacionária da população. Já sei, há muito, que o pensamento brasileiro é, em sua maioria, conservador. Mas até que ponto esse conservadorismo vai nos levar à extrema burrice?

A tarifa de ônibus subiu abaixo do reajuste da inflação, o que já é um avanço, entretanto os salários não acompanharam. Ou seja, nosso poder de compra já está diminuído pelo aumento nos preços dos demais produtos, e agora o aumento dos custos no transporte público também é repassado para o povo? Ainda que não por completo, o repasse dos custos à população é, como sempre foi, uma conta que não é nossa. É fazer o povo pagar por uma política econômica mal sucedida. As empresas não diminuem seu lucro, os consumidores que paguem a mais! Só que antes de consumidores, somos cidadãos, e o direito de ir e vir nos é garantido pela Constituição. À medida em que aumenta os preços do transporte público e não investe em melhorias, o Estado cerceia este direito. Os mais pobres, o perdem aos poucos. Até mesmo a Classe Média o perde, pois é desincentivada a usar o transporte público, e opta, então, pelo transporte individual, causando o trânsito caótico que tanto conhecemos e que tanto tem a piorar.

Muitos dizem, em tom irônico: "Fazer manifestação vai adiantar muito!", "Quebrar a Paulista vai, mesmo, abaixar os preços.". Por favor, parem de hipocrisia. Primeiro que quem fala isso costuma ser a favor dos protestos na Turquia, do levante árabe e reclama que no Brasil "ninguém toma consciência de nada", aí, no primeiro protesto, é o primeiro a apedrejar os manifestantes. Pára né? Vocês acham que a passagem vai diminuir se formos todos à frente da prefeitura e pedirmos "por favor"? Ou se assinarmos petições online, enquanto vemos um vídeo no youtube? Ou se não fizermos nada, reclarmarmos em casa, e aguardarmos pelas próximas eleições? Não estou falando que sou à favor da depredação, mas que sou a favor do povo nas ruas! Só assim se consegue algo. Claro que tais medidas, idealmente, deveriam ser acompanhadas por atos como "boicotes coletivos", entretanto, numa cidade de proporções gigantescas como São Paulo, quem não tem um transporte individual fica quase que refém do transporte público. Não podemos esperar por uma repentina tomada de consciência coletiva. Já dizia Geraldo Vandré: "Quem sabe faz a hora, não espera acontecer". Ou mesmo Chico "(...) Quem espera nunca alcança".

Acompanhei a cobertura da mídia aos protestos. Os manifestantes são tratados como "vândalos" e o único ato de importância é a "depredação". O REAL debate que a mídia deveria colocar à tona é sobre os preços das passagens, mas isso não interessa. Nem a eles, nem ao Estado, e nem às empresas. O governo reprime, além do direito de ir e vir, o direito à liberdade de expressão do povo, através das intensas e violentas repressões da PM (que, aliás, hoje não tem outra finalidade senão a de aparelho repressor do Estado - o silenciador de bocas),  e a mídia, essa com liberdade TOTAL para se posicionar ao lado do empresários, da PM e do Estado, vilaniza o próprio povo. E o mais inacreditável: O POVO COMPRA ESSA VISÃO! Ou seja: o povo é o vilão do povo? Como, eu me pergunto, COMO, meu Deus, ninguém pára pra analisar a tendenciosidade de um texto, de uma notícia, a que interesses serve, antes de adotá-la como verdade inexorável! Lembrem-se que há sempre uma pessoa (ou uma empresa) com interesses próprios atrás de cada reportagem, de cada linha, de cada imagem, de cada palavra.

Outra abordagem que se faz necessária quanto à cobertura da mídia, é a atenção dada à manifestação. Nos anos de 2006 e 2011, teve-se manifestações de igual proporção, entretanto a cobertura midiática foi infinitamente menor. Sem contar que o aumento registrado nesse ano, foi menor do que nos anos anteriores. Será que é porque este ano prefeito é do PT e cobrir qualquer manifestação dando destaque a esta é reforçar a crítica à administração? Será que a extrema atenção é para reforçar o sentimento de insatisfação?

Diante deste "Cala-te boca" é mais do que necessária uma música de Chico, escrita há muito tempo, e ainda tão cabível:


quinta-feira, 6 de junho de 2013

Poeminha de quinta

Na quinta quitanda, Quintana
Quintana na quinta quitanda
Na quinta, Quintana na quitanda
Quanto Quintana na quinta!
No domingo, quitanda
E na quinta, Quintana, Quintana...

terça-feira, 4 de junho de 2013

Links Utilíssimos

A postagem de hoje não tem nada de poético, crítico, literário, musical ou político. São apenas dicas! :)

Tem alguns sites que uso muito para downloads de livros, músicas (discografias) e filmes. Vou listá-los abaixo.

O primeiro, e um dos melhores, é o site do Instituto Antônio Carlos Jobim. Lá há disponível para download gratuito a discografia e obra do próprio Tom Jobim, Chico Buarque, Milton Nascimento, Paulo Moura, Dorival Caymmi, Gilberto Gil e Lúcio Costa. - http://portal.jobim.org/

O segundo, mas também muito bom, o Download Cult, onde se pode baixar filmes e discografias, digamos, "cults" (odeio esse termo, mas por falta de outro). http://www.downloadcult.com/

Ainda na onda musical, tem um blog muito bom de música, que, além de dar dicas legais, também dá alguns links para download - O Fome Sonora. - http://fomesonora.blogspot.com.br/

Entrando nos filmes, uso dois sites para download: http://www.zip-filmes.com/ e http://yesfilmes.org/
Mas se você estiver procurando por filmes que não sejam "blockbusters" vai ter dificuldade de achá-los nestes sites.
Pra documentários e filmes mais "undergrounds", uso sites que me permitem assistir online: http://www.filmesonlineflv.net e http://megafilmeshd.net/.


Livros. Bom, não gosto muito de ler livros digitais e nem audiobooks. Gosto mesmo é de pegar o livro, sentir, cheirar. Por isso o meu caso de amor com eles! Mas, numa precisão, seguem os links!

Audiobooks:

Download em PDF:


E, pra finalizar, o site de alguns músicos que disponibilizam o download de suas músicas/discos:


Isso é tudo, pessoal!



segunda-feira, 3 de junho de 2013

Eu não estou viciada

Tem pessoas que viciam. Abraços que viciam. Olhares, sorrisos e vozes que viciam.

O problema de se viciar em uma voz, é não conseguir ouví-la sem sorrir. Num sorriso, é sorrir duas vezes mais por vê-lo. Num olhar, é o reflexo. Num abraço, é a necessidade. E numa pessoa, é o próprio vício.

Viciar-se é saber que tem abraço bom, tem abraço ruim e tem o seu. É perceber que olhos também sorriem. É saber ler olhares e pensamentos. É ler uma frase, e ser capaz de ouvir a voz dizê-la. É não saber o que sente - saber apenas o que sente agora, e o que sente quando a pessoa sorri.

"O vício é o estrume da virtude", já dizia, acertadamente, Brás Cubas. Concluo que o vício é o estrume do amor. A necessidade, o pensar, o impulso, são sintomas de um vício nem sempre saudável e destruidor de planos.

Sozinhos, em casa, no ônibus, na rua, apenas com nossos pensamentos e nossos "grilos da consciência", fazemos planos: Planos de nos afastarmos, de ignorar, de esquecer, de desapegar, de não falar e de não pensar. Planos que se vão em um segundo, tão rápido quanto chegaram, como se um sorriso acabasse com todo o nosso bom senso (é só você vir com esse seu sorriso lindo, que eu abandono todos os planos que fiz contra nós).

E é um tal de só dizer "quem dera". Um tal de se sentir culpado, de querer mais e depois planejar tudo de novo. De levar bronca da consciência. De jurar que vai parar, a hora que quiser (eu paro quando quiser), e de fazer tudo de novo.

E ninguém mais trabalha direito. E checam-se e-mails, facebooks, whatsapps, twitters e mensagens. E é sempre o último pensamento da noite e o primeiro da manhã. E são feitos planos e contra-planos, elaborados diálogos, cenas de filmes, trilhas sonoras, dramas, comédias, romances e tragédias. Mas o grilinho sempre te puxa e te solta, nesse vai-e-vém de quereres e pensamentos.

Será que há uma clínica de reabilitação para viciados em abraços, olhares, sorrisos e vozes?

Enfim, chega de mimimi. Se houver, bem. Se não, oras, eu não estou viciada. Paro quando quiser...