Tenho orgulho de dizer que estava ontem na manifestação contra o aumento da passagem, no Centro de São Paulo. Tenho orgulho de dizer que ainda sinto o cheiro de vinagre. De falar que estou cansada, e que minha cabeça ainda dói. E tenho mais orgulho ainda de dizer que o que dói mais é a indignação, a revolta.Ontem presenciei um massacre, desses dignos de ditadura. Quero expressar minha experiência aqui, para que todos vejam quem são os verdadeiros "vândalos".
30 - esse era o saldo de presos antes da manifestação começar. 30 pessoas foram presas nas ruas ou estações de metrô por portarem VINAGRE, com acusação de FORMAÇÃO DE QUADRILHA. Logo quando cheguei ao local, já vi um manifestante sendo arrastado pelos policiais, e os jornalistas carniceiros indo atrás, em busca de uma boa matéria.
Às 17h, o Theatro Municipal já estava cheio, tomado pela multidão que gritava pacificamente "Vem pra rua, vem: Contra o aumento!". Saímos em direção à Praça da República, pela rua Barão de Itapetininga, por volta das 18h. Muitos de nós (eu, por exemplo) portávamos flores, em sinal de paz. Seguimos em direção à Rua da Consolação, passando pela Praça Roosevelt. Acabei, por esperar um amigo, e fiquei no final do bloco, onde pude ver a polícia "sumindo" com manifestantes na surdina (eles simplesmente chegavam num cara distraído e sozinho, agarravam-no e o saíam arrastando).
Enfim, chegamos às portas da Rua da Consolação, com gritos de "sem violência". Um grupo da Tropa de Choque nos esperava, e, sem mais nem menos, começou a nos atacar com bombas de gás lacrimogêneo e pimenta. Saímos correndo no sentido oposto, parando em frente à Praça Roosevelt, onde demos de cara com outro grupo do Choque, vindo em nossa direção e atirando mais bombas - fôramos encurralados na Roosevelt. Tivemos que subir correndo e ocupar à praça, com o choque vindo atrás. Ao final da subida, descemos em direção à Augusta. A esta hora o caos já estava instaurado: um ônibus estacionado foi pichado e incendiado.Com o Choque dos dois lados da rua, pensamos em subir a Rua Martinho Prado, mas já um terceiro grupo do Choque vinha descendo. Dessa vez, já descia atirando. Saímos numa grande multidão, em direção à Avenida 9 de Julho, para chegarmos à Paulista.
Já na 9 de Julho, dividimo-nos por dois caminhos: um seguia pela Avenida, e o outro desviava para a Augusta: Permaneci na Avenida. Quando na Altura do Viaduto Dr. Plínio de Queiroz, recebemos a notícia de quem já havia chegado: "A cavalaria está nos aguardando na Paulista". Um carro da ROTA, para no viaduto, aponta-nos seus belos fuzis e diz: "Continuem andando! Não é pra parar!". Foi quando tudo ficou claro: Nos dispersaram na Roosevelt, e nos estavam tocando, como a quem toca gado, para a Paulista, onde nos cercariam e a pancadaria de verdade teria início. Vimos mais viaturas descendo em direção à 9 de Julho. Desviamos em uma ruela e nos perdemos da multidão. Paramos num bar, onde havia transmissão ao vivo. Vimos a chegada à Paulista, e a pancadaria da PM. Encontramos outro grupo, não tão grande, indo em direção à Paulista - aderimos. Sabíamos que íamos apanhar, sabíamos desde o início. Mas que apanhemos resistindo e gritando, então!Neste grupo a que aderimos, ficou claro que alguns manifestantes perderam o foco: saíram depredando ruas de bairros residencias, sem motivo. Quer depredar? Depreda Centro e via principal. Bairro residencial ninguém liga, só vai causar transtorno aos moradores. Desgarramo-nos novamente, devido às ações descontroladas. Decidimos chegar sozinhos à Paulista. Voltamos para a 9 de Julho, e estávamos indo em direção à ela, quando encontramos manifestantes que de lá retornavam: "A polícia esperou chegarmos lá, os dois grupos, para descer a porrada! Tinha muita bomba, e muita polícia! Fecharam as saídas - nos encurralaram.", nos contaram. Seguimos andando em direção à Paulista, e encontramos outro grupo que também voltava de lá e nos disseram: "Não vão. Fecharam a Paulista. Os PMs tão batendo em todo mundo que se aproxima. Eles nem querem saber quem é. Só vão batendo e prendendo. Grupo pequeno, como vocês, não tem chance.". Recebemos a ligação do pai de um amigo nosso, que estava na Alameda Santos: "A PM tocou o pessoal da Paulista pra cá. Encurralou. Eles tão correndo, a polícia atrás batendo e jogando bomba. Tem camburão e ônibus aguardando pra levar preso. Atrás da polícia, tem um caminhão de lixo, já limpando tudo.". Ficou mais do que claro o nível de organização e tática repressiva da polícia: Dividir, tocar, encurralar, porrada, prisão e limpeza.
Voltamos então à Praça Roosevelt, pra ver se ainda achávamos alguma resistência desgarrada. E qual não foi a nossa surpresa, quando chegamos e encontramos tudo na mais perfeita paz? As ruas limpas, sem vestígios da "batalha campal" ali travada. Skatistas fazendo suas manobras, pessoas nos bares, o ônibus já havia sido retirado e alguns carros da PM continuavam no local. É a polícia mostrando ao capital que aqui não é Europa, não tem essa de manifestação e bem estar social - a banda toca conforme à música do Estado, e está tudo sob controle.
Derrotados, voltamos à Praça da República, onde nos recolhemos à nossa insignificante posição de povo reprimido e indignado. Mais do que o cansaço, a fome (que nem era sentida, de tanta adrenalina), e o cheiro de vinagre, levávamos para casa a indignação, o ódio, a raiva e a revolta.
Estes vídeos mostram razoavelmente bem como foi a ação da PM. Dou destaque ao primeiro:
- http://terratv.terra.com.br/videos/Noticias/Brasil/Cidades/4828-474292/SP-policia-atira-bombas-em-jovens-que-filmavam-protesto-do-7-andar.htm
- https://www.youtube.com/watch?v=INbRznbgMZM
- https://www.youtube.com/watch?v=yZ6HfSWsIvk
- https://www.youtube.com/watch?v=ifXTX-HDb0o
Tendo fim o meu relato, gostaria de expressar alguns pontos:
Como já disse, e não me canso de dizer, foi a maior covardia e massacre que já presenciei. Nós estávamos pacíficos e fomos atacados. Fomos tocados para sermos massacrados. Tivemos dezenas de prisões arbitrárias, com acusação de "formação de quadrilha", algumas das quais, foram classificadas como "inafiançáveis" ou com fiança de 20 MIL. Chamaram GCM, PM (com 3 helicópteros), Rota, GOE, Tática, Cavalaria e Tropa de Choque para um grupo de manifestantes que clamavam por "Não violência", quase que pedindo, pois sabíamos da nossa fragilidade.
O Alckmin é um fascista. Disso todos nós estamos cansados de saber. A PM é um órgão repressor, disso também estamos cansados de saber. Mas muito me admira que o ocorrido tenha se passado numa cidade governada por um membro de um partido (teoricamente) de esquerda, cujo militantes engrossavam o grupo de manifestantes. Admira-me mais ainda que isto esteja se passando num país que é comandado por uma ex-guerrilheira, que lutou, sofreu repressão e foi torturada em nome de uma democracia que hoje não temos! E mais, como um amigo meu fez questão de lembrar: "Aquelas balas de borracha são compradas com o nosso dinheiro, e usadas contra nós.".
Já está mais do que claro que essas manifestações não são apenas por 20 centavos. Não é apenas o aumento da tarifa. Isso foi o estopim - a gota d'água. Da mesma maneira que as manifestações na Turquia não são SÓ por causa de um parque, e a Revolta da Vacina não foi só por causa da vacina. O povo já está cansado de ser reprimido pelo Estado que defende o capital em detrimento de sua própria população. Sustentamos uma organização que tem como objetivo, desde seus primórdios, a manutenção da opressão e da diferença de classes. O Estado foi criado para servir ao Capital. A polícia foi criada para manter a "ordem" vigente, onde uns ganham às custas dos outros. Vivemos numa farsa de democracia, onde tudo, TUDO, é feito para acreditarmos que esta é a única verdade - jornais, consumismo, alienação, "educação", tudo! No final das contas, temos de lutar contra um Estado opressor, que deveria nos representar, usando paus, pedras, garrafas plásticas e vinagre, enquanto o inimigo, que deveria nos proteger, vem com armamento e tática de guerra! E o pior é que a alienação dá tão certo, e produz tantos frutos, que nós, que lutamos pelos direitos de TODOS, somos repudiados e tidos com "vândalos desgarrados" pela maior parte da população. Somos o "povo vilão do povo", nessa sociedade atingida pela Síndrome de Estocolmo.



