segunda-feira, 24 de junho de 2013

Antes, Durante e Depois

Demorei para escrever este post porque estava tentando fazer uma conexão entre o "antes" e o "durante", para poder construir um "depois". Tive de fazer uma extensa análise sobre panos de fundo que vem sendo tecidos, não hoje, e nem ontem, mas durante meses e anos. Depois, conectar estes panos ao atual desdobramento das manifestações, para assim construir uma previsão, ou, talvez, apenas um chute fundamentado.


Antes

Vamos analisar o pano de fundo dos atuais protestos: Insatisfação econômica devido à uma sensação de descontrole inflacionário, extremo descontentamento com a política e suas organizações, fortalecimento do discurso conservador, desconhecimento do funcionamento do Estado por parte de uma grande maioria e "endeusamento" do poder judiciário.

Este "painel de sensações" está sendo construído há anos pelos tecelões da opinião brasileira: A grande mídia. Vamos discorrer sobre esta "esplendorosa" construção midiática:

  • Inflação

    A inflação subiu? Subiu. Mas não estamos no descontrole que a mídia insiste em nos empurrar goela abaixo. O índice de inflação está batendo no teto da meta anual, MAS AINDA ESTÁ DENTRO DA META, e, portanto, sob controle. Entretanto, há tempos não se batia tanto nesta tecla, como se estivéssemos a níveis galopantes, rumo ao precipício pré-plano real. Sinceramente, a impressão que tenho é de uma imensa má vontade por parte da mídia e do empresariado em colaborar com as medidas econômicas do Governo. Pressionou-se, pressionou-se, pressionou-se, até que o BC cedeu e elevou a taxa Selic em 0,5, depois de um aumento de 0,25. Medida neoliberal e APENAS antiinflacionária, prejudicial ao desenvolvimento econômico e à população, e um alívio para o empresariado (é a essas pessoas que você dá ouvidos). O cúmulo do absurdo do sensacionalismo midiático foi o festival feito em torno da alta do tomate, cujo assunto virou até capa de revista, sendo que o aumento estava muito mais vinculado à questões de safra do que à inflação. Podemos ver que há um IMENSO abismo na diferença entre a inflação REAL e a inflação IMAGINÁRIA. Para os desavisados, a inflação "galopante" dos dias de hoje é quase metade da que tínhamos nos dias de FHC.

  • Descontentamento Político e Superlativização do Judiciário

    Este é outro tópico em que a mídia nacional vem trabalhando árduamente. O "escândalo do mensalão", que nem de longe é o maior caso de corrupção do Brasil, é uma prova disso. Bateram, bateram, bateram nesta tecla, entretanto a aprovação do Governo Dilma continuava altíssima. Que fazer então? Ressucitar o fantasma inflacionário, que ainda assombra os que lembram ver seu salário diminuindo com o passar da semana. Empenhados em passar a imagem de que "políticos não prestam", os veículos de comunicação em massa precisam de um salvador da Pátria. E quem melhor do que o "Batman do judiciário", Joaquim Barbosa? Os mesmos veículos que tem trabalhado no "Show do Mensalão" construíram o endeusamento do Presidente do STF, e fortaleceram o próprio órgão, como se juristas autoritários e burocráticos fossem a solução de todos nossos problemas.
    O STF, que, a meu ver, defende quase sempre interesses elitistas, tem ganhado cada vez mais poder, tanto por respaldo midiático, quanto pelas mãos-de-ferro centralizadoras e ansiosas de poder de seu presidente. A prova maior de que não se defende a democracia nem no judiciário e nem na mídia, é a intensa repulsa pela PEC 33, projeto que prevê maior participação popular nas decisões referentes à inconstitucionalidade de leis, e, não, não tira este poder do judiciário, apenas verifica que os juízes são humanos e erram - se a grande maioria dos ministros concentirem, a decisão é acatada; mas se houver uma divisão muito grande de opiniões, há de se ter outros pontos de vista.

  • Fortalecimento do Pensamento Conservador

    Ultimamente, temos dado trela demais à Malafaias e Felicianos e isso fez dar força à seu discurso. Cada vez mais, surgem grupos extremados e com discursos de ódio, que se sentem legitimados ao ver um deputado utilizando-se do mesmo discurso em rede nacional, e nada acontecer. Não que eu ache que isto tenha sido proposital da mídia (desta vez), mas esta aumentou o alcance e a "moral" de tal discurso. Hoje, como há muito não se via, os Direitos Humanos são postos em xeque por discursos cada vez mais difundidos na sociedade, baseados na defensão da "família, da moral e dos bons costumes".

  • Desconhecimento do Funcionamento do Estado

    Esta eu responsabilizo Estado e mídia, meio-a-meio. Primeiro porque é simplesmente absurdo que não se ensine o funcionamento do Estado Brasileiro nas escolas. Como pode alguém viver num Estado, para o qual paga impostos, utiliza serviços, elege representantes, e não conhecer seu funcionamento? A parte da mídia, é que esta se aproveita do desconhecimento popular para colocar a culpa de todos os padeceres do país em que lhe for conveniente, induzindo, assim, ao erro da população na cobrança de pautas.

Durante

Em meio ao pano de fundo construído durante anos, o Movimento Passe Livre, faz manifestações contra o aumento da tarifa do transporte público, como de praxe. O primeiro ato realizado no dia 06/06, teve aderência pouco maior do que o normal (nada alarmante). Anormal mesmo, foi a cobertura midiática - que de uma nota de rodapé passou para capa. Na tentativa de fortalecer o sentimento de insatisfação com a gestão do PT na Prefeitura de São Paulo, a atenção dada às manifestações, ainda que no sentido de crítica (onde já se viu, mídia elitista apoiar movimento popular?), surtiu efeito propagandístico e ajudou a aumentar exponencialmente o número de participantes nos demais atos, chegando à 20 mil em sua quarta versão.

O Quarto Ato merece um parágrafo só dele: Movida por sentimento de vingança, a polícia de São Paulo organizou um esquema repressivo digno de ditadura, com direito à agressões, policiais não identificados, prisões arbitrárias, abuso de poder e extrema violência. 15 jornalistas saíram feridos. Diante de um número de manifestantes grande e crescente, e da violência policial que já se mostrava em sua própria redação, a imprensa não teve mais como esconder: Mudou o tom, e o foco para a repressão. Curiosamente, dois dias depois, o Governador do Estado, Geraldo Alckmin, que tinha elogiado o trabalho da polícia na quinta-feira sangrenta, vira um pacifista de mãos cheias, convocando o MPL para reunião com o secretário de segurança, liberando quaisquer vias para movimentação e proibindo o uso de balas de borracha pela PM.

Temos então uma comoção nacional. E é neste ritmo que se dá o Quinto Ato, na segunda-feira (17/06): A Paulista em festa, os protestos espalhados pelo Brasil - 200 mil (não se enganem com esses "65 mil" do Datafolha) saem pelas ruas de São Paulo. Bandeiras brancas se agitam nas janelas dos apartamentos. A polícia virou paisagem. O grito que ecoa não é mais o de luta - é de paz, negação de partidos e de "vandalismo" e pelo Impeachment da Presidente. Galera, mas e o aumento da passag... EU SOU BRASILEIRO, COM MUITO ORGULHO, COM MUITO AMOR!

Terça, segue-se o mesmo ritmo de final de Copa do Mundo na Paulista. A pauta... que pauta? Poucos são os que tem a cabeça no lugar. A pauta agora é a Copa, a Educação, a Saúde, a Corrupção, a PEC 37, a Dilma e tantas mais quantas a Veja disser. Cresce o discurso nacionalista. Cresce ainda mais o discurso "apartidarista" (ou antipartidarista?). Patrimônios públicos e privados são depredados e são efetuados saques (?). "Aonde estava a PM?", você me pergunta. "Olhando", eu te respondo. A mesma PM dos abusos de quinta, ficou apenas observando enquanto o caos se construía no Centro de São Paulo. O Choque, demorou 2 horas para chegar, depois de ser acionado pela Prefeitura.

Então, no Sétimo, e último, Grande Ato os partidos de esquerda e movimentos sociais (incluindo o próprio Passe Livre) foram hostilizados por grupos de skinheads e nacionalistas radicais, que tinham o apoio da massa cara-pintada e festiva. Bandeira, só pode a do Brasil. No final das contas, o movimento foi expulso do movimento. O criatura voltou-se contra o criador.

Fazendo uma rápida análise do "Durante": Não tendo mais como esconder ou botar panos quentes, a mídia toma a posição mais inteligente: juntar-se a nós. Mas não sem reger a pauta, é claro. A mídia direitista conseguiu pegar uma manifestação de esquerda, impor pautas de direita e mobilizar uma grande massa para defender suas pautas e sua ideologia, mascarada  de não-ideologia. No final, resolveu-se o problema dos vândalos e arruaceiros da esquerda. Agora temos respeitáveis cidadãos e brasileiros que lutam pelos seus direitos (ou pelos de outrém?).


... E, finalmente, o Depois

É difícil de antecipar os próximos passos, mas tenho teorias que, entretanto, dependem das ações do MPL.

Caso o MPL não venha a organizar mais atos, contra o que quer que seja, este movimento vai se dissipar logo - tão rápido quanto surgiu. Sem a esquerda e os movimentos que ajudaram a formá-lo, não terão forças para se reorganizar, e tudo voltará ao normal (exceto o valor das passagem, amém!).

Se o MPL continuar a fazer atos (o mais provável), os rumos são incertos. Poderemos ter um descontrole gerado pela falta de conhecimento do funcionalismo do estado, intensa instisfação e ausência de pautas definidas. Cabe agora ao MPL definir as pautas e conseguir guiar esta multidão perdida que chamaram para si.

A postura do MPL, aliás, é algo que me preocupa muito. O Movimento tem uma rejeição à esta grande responsabilidade, e recusa-se a tomar para si a posição de liderança, baseando-se no fato de que formam "um movimento horizontal e com pautas definidas, e que nada tem a ver com a movimentação de outras pessoas". MPL, querendo ou não, vocês JÁ assumiram a liderança, e negá-la pode ter sérias consequências. Seria muito mais inteligente, como movimento, como esquerda e como militantes comprometidos, assumir esta posição que, querendo vocês ou não, já lhes cabe. Quem sabe assim, não convertemos os cabeça-de-Globo em cabeças pensantes? Poderemos conquistar muitas coisas juntos, unidos sob um mesmo objetivo. De nada vale muita revolta no coração e pouca coisa na cabeça.

Quanto aos rumores de "golpe": Confesso que fiquei receosa. De fato, parecia (e muito) que a história se repetiria. Mas, hoje, depois de conversas, reflexões e com a cabeça no lugar, tenho duas possibilidades: Um possível golpe político, disfarçado de "revolta popular", que poderia ocorrer caso a situação saia do controle, ou, o mais provável na minha opinião, um golpe de "opinião pública", desses que nossa imprensa dá todos os dias, em prol de seus objetivos. Já descartei a teoria do "golpe militar".

Baseado em todos estes pontos, proponho uma reflexão: Até quando a mídia terá a capacidade de determinar os rumos deste país?