Segundo Schopenhauer vivemos num ciclo de vontades, em que desejamos, nos saciamos e nos enfadamos... até que desejemos de novo. Para ele, somos uma vontade, vivemos uma vontade, que nunca será saciada por completo.
Há quem diga que são as vontades que movem o mundo, Schopenhauer inclusive, eu inclusive. Mas, na minha opinião, o que realmente promove mudanças verdadeiras no "status quo" é a coincidência de vontades. Vontades unilaterais causam no máximo agitação, turbulência, transtorno. Cazuza foi um gênio quando disse "que coincidência é o amor". Porque o amor, realizado e não platônico, é isso: uma coincidência de quereres.
Falando em quereres, outro gênio, que também sabe do que falo (e do que não falo), é Caetano. Em uma música chamada "O quereres", ele trata dessa "desconexão de vontades":
"Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói
Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és"
Desencontros de quereres são extremamente prejudiciais a quem muito quer. Podem causar decepções, desilusões, feridas, mágoas e tristezas. Claro que o querer demais pode ser bom, mas apenas se algum dia houver uma coincidência. Porque o querer de menos é fraco: depende da sorte. O querer demais também depende da sorte, mas, falando em probabilidade agora, se jogarmos uma moeda apenas uma vez, temos apenas uma chance para que dê cara, mas se a jogarmos 10 vezes, temos 10 chances. Pode ser que nas dez vezes dê coroa, mas vai que, por algum acaso, por algum descuido do destino, dá cara? Bem sabe Jobim, que a hora do "sim" é o descuido do "não".
Fazendo uma conexão com as consequências de desencontros de quereres, temos a mudança de quereres. Às vezes queremos muito, queremos tanto, com tanta intensidade que consumimos o querer de 10 anos em 10 dias. Acabamos fazendo promessas malucas, como trazer mil rosas roubadas, que se tornam tão curtas quanto um sonho bom. Quando o querer é demais, não tem essa de pra sempre - é querer até deixar de querer. Porque querer que arde sem se ver, não tem como ser imortal, posto que é chama; é, portanto, infinito enquanto durar...
O desencontro de quereres no auge da "exageradice" é, logo, muito nocivo. É uma ruptura. É abrupto. É muito querer pra muita indiferença. É querer demais, pra quem tanto faz. Quanto menor a diferença de quereres, mais fáceis as coisas. Quem vai saindo aos pouquinhos, causando um quererzinho a menos a cada partida, uma hora não tem mais querer nenhum. Porque sair à francesa não causa tristeza e nem nada, além de um fim de tarde a mais.
Como diz Shakespeare, alegrias violentas, têm fins violentos, falecendo no triunfo, como fogo e pólvora, que num beijo se consomem. Bom mesmo é fazer como Quintana, querer bem devagarinho, porque a vida é breve, e o amor mais breve ainda...
Há quem diga que são as vontades que movem o mundo, Schopenhauer inclusive, eu inclusive. Mas, na minha opinião, o que realmente promove mudanças verdadeiras no "status quo" é a coincidência de vontades. Vontades unilaterais causam no máximo agitação, turbulência, transtorno. Cazuza foi um gênio quando disse "que coincidência é o amor". Porque o amor, realizado e não platônico, é isso: uma coincidência de quereres.
Falando em quereres, outro gênio, que também sabe do que falo (e do que não falo), é Caetano. Em uma música chamada "O quereres", ele trata dessa "desconexão de vontades":
"Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói
Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és"
Desencontros de quereres são extremamente prejudiciais a quem muito quer. Podem causar decepções, desilusões, feridas, mágoas e tristezas. Claro que o querer demais pode ser bom, mas apenas se algum dia houver uma coincidência. Porque o querer de menos é fraco: depende da sorte. O querer demais também depende da sorte, mas, falando em probabilidade agora, se jogarmos uma moeda apenas uma vez, temos apenas uma chance para que dê cara, mas se a jogarmos 10 vezes, temos 10 chances. Pode ser que nas dez vezes dê coroa, mas vai que, por algum acaso, por algum descuido do destino, dá cara? Bem sabe Jobim, que a hora do "sim" é o descuido do "não".
Fazendo uma conexão com as consequências de desencontros de quereres, temos a mudança de quereres. Às vezes queremos muito, queremos tanto, com tanta intensidade que consumimos o querer de 10 anos em 10 dias. Acabamos fazendo promessas malucas, como trazer mil rosas roubadas, que se tornam tão curtas quanto um sonho bom. Quando o querer é demais, não tem essa de pra sempre - é querer até deixar de querer. Porque querer que arde sem se ver, não tem como ser imortal, posto que é chama; é, portanto, infinito enquanto durar...
O desencontro de quereres no auge da "exageradice" é, logo, muito nocivo. É uma ruptura. É abrupto. É muito querer pra muita indiferença. É querer demais, pra quem tanto faz. Quanto menor a diferença de quereres, mais fáceis as coisas. Quem vai saindo aos pouquinhos, causando um quererzinho a menos a cada partida, uma hora não tem mais querer nenhum. Porque sair à francesa não causa tristeza e nem nada, além de um fim de tarde a mais.
Como diz Shakespeare, alegrias violentas, têm fins violentos, falecendo no triunfo, como fogo e pólvora, que num beijo se consomem. Bom mesmo é fazer como Quintana, querer bem devagarinho, porque a vida é breve, e o amor mais breve ainda...