domingo, 11 de agosto de 2013

Mais "senso" e menos "humor", por favor!

"Qual é a semelhança entre a mulher e o macarrão?
Os dois você enrola primeiro e depois come!"

HAHAHA! Engraçado, não é? NÃO, moçxs. Isso não é engraçado - é preconceituoso. É machista. Aposto que você, que leu e riu dessa piada, nem sequer se considera machista. Mas vai contá-la, reproduzi-la, e provocar risos e mais risos com a disseminação de um preconceito.  "Mas é SÓ UMA PIADA", muitos dirão, "é só uma 'inocente' piada"...

"A ignorância não fica tão distante da verdade quanto o preconceito" - Denis Diderot.

Como será que se transmite uma cultura? Como se transmite um pensamento? Vocês realmente acham, que o pai do pai de vocês, e assim por diante diziam, enfaticamente, que lugar de mulher é dentro de casa? Que mulher serve pra comer e fazer comida? Aliás, o pai de vocês (aproveitando o ensejo da data) dizia-lhes: "Se a mulher responder, dá umas palmadas!" ou "mulher server pra dar, procriar e cuidar do homem". Aposto que não. Então, por que ainda temos casos de estupros em que mulheres são culpabilizadas por "não se darem ao respeito"? Por que temos homens e, pasmem, MULHERES que dizem "Ah, é errado bater na mulher, mas tem mulher que merece apanhar!"? Por que o papai parabeniza o filho que "come todas" e zela pela virgindade da pobre filhinha?

Há dois meios de disseminação de cultura de pensamento: Abertamente ou veladamente. Abertamente, todos sabemos como é: destilar frases e comportamentos ofensivos. Mas, como se dissemina preconceito veladamente? Através do humor, da licença artística, dos brinquedos sexistas. A cada conjunto de panelinhas, barbies e vassourinhas que se dá para uma menina, a cada piada contada no bar, a cada personagem caricato na novela, o preconceito é transmitido, de geração para geração. E nisto, podemos enquadrar qualquer tipo de preconceito: O machismo, através de piadas como as citadas acima, a homofobia, com personagens gays caricatos que tanto vemos nas novelas globais, o racial ("O que mais brilha num negro? As algemas!" - HAHA) e o preconceito de classes.

Atualmente, temos dois grandes representantes da disseminação de preconceito: os ENGRAÇADÍSSIMOS Rafinha Bastos e Danilo Gentili. Esses dois são realmente BONS no que fazem! Eles conseguem fazer piadas hilárias difusoras de pensamentos machistas, homofóbicos, racistas, classe-medistas e elitistas, usando o escudo do "humor politicamente incorreto". Pra começar que o termo "politicamente correto" foi criado nos EUA, como arma da direita na guerra cultural, e é, até hoje, pejorativo e usado para desqualificar o comportamento não preconceituoso e legitimar o preconceito - afinal, se é isso o que pensamos, o que achamos engraçados, por que escondermo-nos atrás de carapuças "politicamente corretas"? Outro ator na cena do "humor politicamente incorreto" tem dado suas caras: o global Porta dos Fundos.

                                      

A livre e aberta disseminação de preconceito e discurso de ódio também tem cada vez mais se legitimado através de falsos conceitos e interpretações. Nos últimos anos páginas, sites e blogs preconceituosos se multiplicaram na internet protegidos pelo argumentos da "Liberdade de Expressão". Impulsionados e amparados por discursos semelhantes de figuras públicas como Bolsonaro, Malafaia e Feliciano, a sensação de impunidade dá o "aval" para que grupos neonazistas, fascistas ou simplesmente indivíduos preconceituosos se manifestem abertamente - "sem medo de ser feliz". Liberdade de expressão não deve ser confundida com liberdade de "discurso de ódio" - o seu direito de expressão acaba quando o direito à não discriminação do outro começa. Racismo é crime. Infelizmente, nosso código penal ainda não trata de homofobia e machismo, mas esse é uma luta nossa!

Páginas como a "Orgulho de ser Hétero" PRECISAM acabar! O humor preconceituoso TEM, SIM, de ser censurado. Não podemos aceitar que Felicianos e Malafaias falem pela boca sorrateira do humor, ou protejam-se nas barras da "liberdade de expressão". O Brasil é um país culturalmente e essencialmente machista, racista e homofóbico - enfim, conservador, e para transformar a sociedade é necessário começar pelo pensamento do cidadão.

Pra encerrar, uma música da Lily Allen, absolutamente pertinente: