segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Não quero Rodas ditador, quero votar pra reitor!


Todos já sabemos e esperamos o posicionamento de jornais como "Folha de S. Paulo", mas a matéria publicada no domingo foi uma amostra escancarada disso. A disposição das fotos, as palavras escolhidas, sem contar a entrevista do REItor João Grandino Rodas, coberta de confetes. A ocupação tem um blog (ocupacaousp2013.wordpress.com) onde publica informes oficiais e explicações de nossas exigências e motivos, e, ou a Folha não o consulta, ou o consulta e faz questão de ignorá-lo.

"Também nesta semana, Rodas viu cerca de 500 alunos invadirem a reitoria porque são contra o processo de escolha do reitor. "Seria proveitoso se a postura de 'ser contrário a tudo' fosse substituída por postura firme de reivindicações e de colaboração", analisa.

Os manifestantes representam 0,51% dos mais de 92 mil alunos. "A grande maioria dos uspianos e da sociedade civil está cansada desse método violento e ilegal utilizado por certas minorias", diz."

A grande maioria da comunidade USPiana está em GREVE, sr. Reitor. A grande maioria da comunidade USPiana quer DIRETAS JÁ. E a Folha sabe disso.

Não bastando, me deparo com esta reportagem na página principal da seção "Cotidiano", que busca legitimar o atual processo de escolha do REItor.

"Políticos indicam 1 em cada 5 diretores de escolas públicas"
http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/10/1352772-politicos-indicam-1-em-cada-5-diretores-de-escolas-publicas.shtml

A USP tem um dos processos de escolha mais antidemocráticos do país, na qual apenas 2% da comunidade USPiana pode participar, excluindo TOTALMENTE alunos, funcionários (da USP e terceirizados) e professores não efetivos (Na EACH, por exemplo, os professores não efetivos representam cerca de 80% do corpo docente).

Além de tudo, são mais do que Diretas. Os cursos de humanas, por exemplo, passam por um intenso processo de precarização. Os funcionários terceirizados são cerceados de diversos direitos, e a USP compactua com essas empresas. A Universidade passa por uma fase de intensa repressão e perseguição política, e isso se dá com alunos, professores e funcionários. 3 funcionários estão sofrendo processos administrativos por adesão à greve, sem contar os 70 alunos processados pela ocupação da reitoria.

Como se não bastasse a USP serve cada vez menos à comunidade. A universidade cercada de muros e cheia de catracas cerceia o acesso da população à seus espaços. Quer dizer, a população do Estado de São Paulo inteira paga pela manutenção da Universidade para ter cada vez menos acesso à ela. Como se já não bastasse à restrição ao ensino, imposta por um vestibular elitista, agora temos políticas, reforçadas pelo Dr. João Grandino Rodas, que restringem também o acesso ao espaço da Universidade! E mais, os alunos também sofrem esse processo de políticas restritivas à ocupação de espaços. O objetivo da REItoria é transformar a USP num espaço exclusivamente acadêmico e elitista, sendo que não é essa a função da Universidade.

Há, ainda, um péssimo programa de permanência. O Crusp é insuficiente e abandonado. Gostaria de saber como o senhor REItor espera que todos tenham acesso à universidade, se não há moradia estudantil o suficiente, e a que temos peca na qualidade dos prédios antigos e mal estruturados. Estuda, portanto, o filho da família que tem dinheiro para bancar seus estudos.

Não estamos contando os casos de estupro, machismo, racismo, homofobia e assédio que acontecem na universidade todos os dias e para os quais o REItor dá as costas. O Campus do Butantã é extremamente mal iluminado e conta com uma frota de circulares insuficientes, o que expõe as alunas, professoras e funcionárias à situações de perigo, assédio e violência todos os dias. Alunos realizam trotes absurdos, subjugando e violentando fisicamente e moralmente outros alunos e a universidade fecha os olhos. Porque se manifestar não pode, mas bater num negro sem absolutamente nenhum motivo, apenas pelo uso de uma quadra, pode.

É nessa universidade que estudamos/vivemos. Nessa universidade BRANCA e ELITIZADA, onde os negros nos cursos de maior prestígio representam 1% do total e a direção se nega a implantar sistema de cotas. Nessa universidade, onde o REItor compra caviar, vinho importado e um tapete de valor exorbitante, mas não tem verba o suficiente para a permanência estudantil. Nessa universidade onde sofremos violências de diversos tipos todos os dias: Pela força coercitiva da PM no Campus, pela exposição ao assédio moral e sexual, pela disseminação de preconceitos e pela perseguição política. E imagino que falo por mim, e com certeza por MUITO mais do que 0,51% dos alunos, quando digo que NÃO É MAIS ESSA UNIVERSIDADE QUE QUEREMOS.

domingo, 11 de agosto de 2013

Mais "senso" e menos "humor", por favor!

"Qual é a semelhança entre a mulher e o macarrão?
Os dois você enrola primeiro e depois come!"

HAHAHA! Engraçado, não é? NÃO, moçxs. Isso não é engraçado - é preconceituoso. É machista. Aposto que você, que leu e riu dessa piada, nem sequer se considera machista. Mas vai contá-la, reproduzi-la, e provocar risos e mais risos com a disseminação de um preconceito.  "Mas é SÓ UMA PIADA", muitos dirão, "é só uma 'inocente' piada"...

"A ignorância não fica tão distante da verdade quanto o preconceito" - Denis Diderot.

Como será que se transmite uma cultura? Como se transmite um pensamento? Vocês realmente acham, que o pai do pai de vocês, e assim por diante diziam, enfaticamente, que lugar de mulher é dentro de casa? Que mulher serve pra comer e fazer comida? Aliás, o pai de vocês (aproveitando o ensejo da data) dizia-lhes: "Se a mulher responder, dá umas palmadas!" ou "mulher server pra dar, procriar e cuidar do homem". Aposto que não. Então, por que ainda temos casos de estupros em que mulheres são culpabilizadas por "não se darem ao respeito"? Por que temos homens e, pasmem, MULHERES que dizem "Ah, é errado bater na mulher, mas tem mulher que merece apanhar!"? Por que o papai parabeniza o filho que "come todas" e zela pela virgindade da pobre filhinha?

Há dois meios de disseminação de cultura de pensamento: Abertamente ou veladamente. Abertamente, todos sabemos como é: destilar frases e comportamentos ofensivos. Mas, como se dissemina preconceito veladamente? Através do humor, da licença artística, dos brinquedos sexistas. A cada conjunto de panelinhas, barbies e vassourinhas que se dá para uma menina, a cada piada contada no bar, a cada personagem caricato na novela, o preconceito é transmitido, de geração para geração. E nisto, podemos enquadrar qualquer tipo de preconceito: O machismo, através de piadas como as citadas acima, a homofobia, com personagens gays caricatos que tanto vemos nas novelas globais, o racial ("O que mais brilha num negro? As algemas!" - HAHA) e o preconceito de classes.

Atualmente, temos dois grandes representantes da disseminação de preconceito: os ENGRAÇADÍSSIMOS Rafinha Bastos e Danilo Gentili. Esses dois são realmente BONS no que fazem! Eles conseguem fazer piadas hilárias difusoras de pensamentos machistas, homofóbicos, racistas, classe-medistas e elitistas, usando o escudo do "humor politicamente incorreto". Pra começar que o termo "politicamente correto" foi criado nos EUA, como arma da direita na guerra cultural, e é, até hoje, pejorativo e usado para desqualificar o comportamento não preconceituoso e legitimar o preconceito - afinal, se é isso o que pensamos, o que achamos engraçados, por que escondermo-nos atrás de carapuças "politicamente corretas"? Outro ator na cena do "humor politicamente incorreto" tem dado suas caras: o global Porta dos Fundos.

                                      

A livre e aberta disseminação de preconceito e discurso de ódio também tem cada vez mais se legitimado através de falsos conceitos e interpretações. Nos últimos anos páginas, sites e blogs preconceituosos se multiplicaram na internet protegidos pelo argumentos da "Liberdade de Expressão". Impulsionados e amparados por discursos semelhantes de figuras públicas como Bolsonaro, Malafaia e Feliciano, a sensação de impunidade dá o "aval" para que grupos neonazistas, fascistas ou simplesmente indivíduos preconceituosos se manifestem abertamente - "sem medo de ser feliz". Liberdade de expressão não deve ser confundida com liberdade de "discurso de ódio" - o seu direito de expressão acaba quando o direito à não discriminação do outro começa. Racismo é crime. Infelizmente, nosso código penal ainda não trata de homofobia e machismo, mas esse é uma luta nossa!

Páginas como a "Orgulho de ser Hétero" PRECISAM acabar! O humor preconceituoso TEM, SIM, de ser censurado. Não podemos aceitar que Felicianos e Malafaias falem pela boca sorrateira do humor, ou protejam-se nas barras da "liberdade de expressão". O Brasil é um país culturalmente e essencialmente machista, racista e homofóbico - enfim, conservador, e para transformar a sociedade é necessário começar pelo pensamento do cidadão.

Pra encerrar, uma música da Lily Allen, absolutamente pertinente:

                                     

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Sobre o Estatuto da Juventude

Na segunda-feira, dia 5 de agosto, a presidenta Dilma Rousseff sancionou, com dois vetos, o Estatuto da Juventude. O Estatuto trata de políticas afirmativas para a juventude, no sentido de ratificar seus direitos e garantir apoio às organizações juvenis. É claro que esta medida representa um "afago na cabeça da juventude", devido às manifestações de junho. Contudo, o Estatuto entrará em vigor ainda este ano, e é preciso dimensionar o avanço (ou retrocesso) que ele representa.


Nestes dias, ouviram-se muitas críticas ao referido Estatuto, devido à limitação da venda de ingressos no valor de meia-entrada à 40% do total. Mas, lembremos: estamos tratando de um Estatuto, não de um projeto de lei! Há mais fatores e disposições a serem consideradas do que apenas um inciso. Analisemo-os, então, por completo:

O Estatuto da Juventude pauta-se por 8 princípios, sendo estes:
 I - promoção da autonomia e emancipação dos jovens;
 II - valorização e promoção da participação social e política, de forma direta e por meio de suas representações;
 III - promoção da criatividade e da participação no desenvolvimento do País;
 IV - reconhecimento do jovem como sujeito de direitos universais, geracionais e singulares;
 V - promoção do bem-estar, da experimentação e do desenvolvimento integral do jovem;
 VI - respeito à identidade e à diversidade individual e coletiva da juventude;
 VII - promoção da vida segura, da cultura da paz, da solidariedade e da não discriminação; e
 VIII - valorização do diálogo e convívio do jovem com as demais gerações.
Pode-se identificar, no decorrer do documento, diversos pontos que indicam ações afirmativas, principalmente quanto à inclusão social. O Estatuto estende o direito à meia-entrada para jovens de baixa renda (com renda familiar inferior à dois salários mínimos), além de garantir a este mesmo público 2 assentos gratuitos, e 2 disponíveis por 50% do valor, em ônibus interestaduais.

Merece também destaque o 8º artigo, que trata estritamente de políticas educacionais, visando a inclusão e o direito à universidade:
 Art. 8o  O jovem tem direito à educação superior, em instituições públicas ou privadas, com variados graus de abrangência do saber ou especialização do conhecimento, observadas as regras de acesso de cada instituição.
 § 1o  É assegurado aos jovens negros, indígenas e alunos oriundos da escola pública o acesso ao ensino superior nas instituições públicas por meio de políticas afirmativas, nos termos da lei.
 § 2o  O poder público promoverá programas de expansão da oferta de educação superior nas instituições públicas, de financiamento estudantil e de bolsas de estudos nas instituições privadas, em especial para jovens com deficiência, negros, indígenas e alunos oriundos da escola pública.
Podemos notar que o 1º e o 2º incisos reforçam o direito e a necessidade da inclusão universitária, por meio de políticas afirmativas, como as cotas. Isso, num país onde as cotas (sociais e "raciais") não são amplamente aceitas, sofrendo forte resistência por parte das elites, essas mesmas que têm o referido acesso à universidade, é uma vitória e tanto! Jovens, comemoremos!

Ainda na seção de Educação, temos um artigo tratando da obrigatoriedade das universidades de oferecerem políticas de assistência e permanência:

 Art. 13.  As escolas e as universidades deverão formular e implantar medidas de democratização do acesso e permanência, inclusive programas de assistência estudantil, ação afirmativa e inclusão social para os jovens estudantes.

E, para deleite dos militantes pela democratização nas universidades e escolas:


 Art. 12.  É garantida a participação efetiva do segmento juvenil, respeitada sua liberdade de organização, nos conselhos e instâncias deliberativas de gestão democrática das escolas e universidades.

Faz-se também necessário observar que há uma seção tratando apenas dos direitos dos jovens à cidadania, à participação social e política e à representação juvenil. Uma seção inteira para isso. O jovem DEVERÁ ser notado e ouvido. Esta seção representa a tirada do jovem da marginalidade social e política. Agora, o Estado e seus governantes deverão ouvir a juventude, e tratar-lhes como agente político, GARANTINDO seu direito de organização. Conseguem compreender o TAMANHO do avanço que obtivemos aqui? Para coroar esta seção, temos o parágrafo único:

 "Parágrafo único.  É dever do poder público incentivar a livre associação dos jovens."

#ChupaAlckmin #ChupaCabral #ChupaRodas #ChupaPM #ChupaTodoMundo


Há ainda, na seção do "Direito à Profissionalização, ao Trabalho e à Renda", a obrigatoriedade da compatibilidade do trabalho com o horário de estudo. Quem trabalha e estuda, ou já o fez, sabe da urgência desta medida:

Art. 15 (...)
 II - oferta de condições especiais de jornada de trabalho por meio de:
 a) compatibilização entre os horários de trabalho e de estudo;
 b) oferta dos níveis, formas e modalidades de ensino em horários que permitam a compatibilização da frequência escolar com o trabalho regular;
Arrisco-me a dizer também, que a seção "Do Direito à Segurança Pública e ao Acesso à Justiça" pode representar certa base para a não redução da maioridade penal, dando indícios do posicionamento do governo e fornecendo base argumentativa e de garantia de direitos. Mas, isto é uma interpretação pessoal.

Falando agora da polêmica das carteirinhas e meia-entrada, tivemos mesmo um retrocesso e uma área de risco. O retrocesso é o presente que o Governo Federal deu à indústria da cultura, ao limitar a venda da meia-entrada à 40% do total. Como se já não lucrassem o suficiente, agora garantirão uma margem ainda maior de lucro e trambicagem - sim, trambicagem, pois o documento não trata de fiscalização (que, na verdade, não é possível em sua totalidade), portanto, quando o cara do guichê disser "já esgotamos os 40%", quem vai dizer que não?

A área de risco está na possível superlativização da UNE/UBES, que já vem sendo a "queridinha" do governo há um tempo. É preciso frisar que a única entidade juvenil citada no documento é a UNE/UBES, dando a entender que é a única reconhecida oficialmente pelo governo. Ao contrário do que pensam alguns, o Estatuto da Juventude não garante o monopólio das carteirinhas à UNE/UBES, mas tendencia para esta postura, como pode-se verificar abaixo:

 § 2o  A CIE (Carteira de Identificação Estudantil) será expedida preferencialmente pela Associação Nacional de Pós-Graduandos, pela União Nacional dos Estudantes, pela União Brasileira dos Estudantes Secundaristas e por entidades estudantis estaduais e municipais a elas filiadas.

"Preferencialmente" não é "obrigatoriamente", mas, ainda assim, é preocupante. É preciso também lembrar, que o Estatuto garante a gratuidade da expedição da CIE para jovens de baixa renda (muito embora eu pense que ninguém deveria pagar por uma carteira estudantil). Deve-se tomar cuidado para que a UNE/UBES não se torne a única entidade estudantil reconhecida, empurrando ainda mais para a marginalidade as demais entidades e movimentos estudantis.


Nas disposições finais do Estatuto fala-se da criação do Sinajuve (Sistema Nacional de Juventude), sendo que sua competência, financiamento e organização serão definidas em regulamento (ou seja, ninguém sabe ainda do que se tratará o Sinajuve), e dos chamados "Conselhos da Juventude", que serão "órgãos permanentes e autônomos, não jurisdicionais, encarregados de tratar de políticas públicas de juventude e da garantia do exercício dos direitos do jovem". Temos, no entanto, um inciso dizendo:

 § 1o  A lei, em âmbito federal, estadual, do Distrito Federal e municipal, disporá sobre a organização, o funcionamento e a composição dos conselhos de juventude, observada a participação da sociedade civil mediante critério, no mínimo, paritário com os representantes do poder público.

Os conselhos não serão, portanto, de todo autônomos e independentes, não é?


É preciso atentar para o fato de que os Conselhos da Juventude não serão organizações estudantis ou movimentos sociais, portanto, não devem jamais substituir os tais. Apesar de louvável a iniciativa de sua criação, que reforça o desejo de efetivo cumprimento do estatuto e incorpora o jovem como agente político e ativo às instituições sociais definitivamente, o Conselho é, ainda, "subordinado", de certa forma, ao Estado.

O saldo do Estatuto da Juventude pode ser muito positivo, se suas disposições e políticas saírem do papel e se os riscos forem muito bem observados e cuidados. Cautela, comemoração e "mãos à obra", são minhas recomendações.

Veja o Estatuto da Juventude na íntegra: http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/_Ato2011-2014/2013/Lei/L12852.htm

terça-feira, 30 de julho de 2013

Eu, amor, passarinho

Porque o amor é assim,
como eu, passarinho
livre pra voar
e cantar mansinho, ao pé do ouvido.

Porque o amor é assim,
grande demais pra ficar preso
- pesa na gente
Deixa o amor livre,
Que o amor também deixa a gente
levemente,
livremente,
lentamente...


domingo, 28 de julho de 2013

O Papa é Pop!

Imagem da Bienal de Arte de 2009, retrata Ratzinger 
Mais do que nunca, o papa é pop! Mas por que o papa é pop? Por que o Dalai Lama não teve as mesmas atenções que a "Vossa Santidade" quando deu o ar de sua graça em terras brasileiras? Mais apropriada ainda, é a pergunta: Por que os pastores e bispos evangélicos não tem o mesmo tratamento que o papa? Aliás, no que tange a cobertura midiática, por que tem um tratamento completamente diferente?

O Estado não é laico. Os meios de comunicação não são laicos, portanto não tem como o Estado o ser. A Igreja Católica e, consequentemente, o papa defendem o mesmos pontos de "Felicianos e Malafaias". Ambos têm os mesmos posicionamentos conservadores nas questões do aborto, do machismo, das causas LGBTs, etc, e, no entanto, o papa é tratado como popstar, símbolo de pureza e paz, enquanto pastores evangélicos são execrados.  A "humildade" do papa é exaltada ao este escolher andar de Fiat Idea, enquanto o pastor que compra uma mansão vira notícia, mas... e o banco do vaticano que gere cerca de 6 BILHÕES de Euros em ativos? Quanta humildade, Francisco! Sem contar a recente declaração do papa em repúdio a descriminalização das drogas - mais do que conservadorismo, não apoiar uma nova política antidrogas, reconhecendo a falha da atual, é burrice! Quisesse mesmo atenuar a dependência química e os problemas sociais gerados com esta, teria outro posicionamento. Bergoglio pode ser, sim, mais aberto do que os outros papas (até por ter maior simpatia pela Teologia da Libertação), mas daí a chamá-lo de "papa reformista" é um pouco ingênuo demais. "Reformas" só são reformas quando atingem a base - reformas superficiais apenas deixam a mesma casa, com os mesmo problemas, e o uma fachada mais bonita e enganosa.

Não estou, de maneira nenhuma, defendendo os fundamentalistas evangélicos, mas nossa querida mídia deveria ser, no mínimo, coerente: Se for pra execrar por conservadorismo, execre ambos. Agora, dois pesos, duas medidas, para óleo da mesma unção (hahaha), é piada! É apostar demais na burrice da população!

Mas, como ter um Estado laico, que prese em preservar as liberdades individuais, num país onde todos os feriados são católicos? Num país onde a maioria dos ÓRGÃOS PÚBLICOS tem imagens de santos e crucifixos? Num país onde o papa é recebido como "Vossa Santidade" e tem tratamento de celebridade pela imprensa? Onde autorizações para alguns trabalhos sociais são oferecidos exclusivamente à igreja católica? Onde suas cédulas de dinheiro tem a inscrição "Deus seja louvado" (se eu fosse Deus, ficaria puta com isso, fica a dica). De qualquer forma, todos sabemos o quanto NÃO VIVEMOS num Estado laico. O difícil é avaliar o exato papel dos meios de comunicação nisto: Eles são consequência ou causa? Na minha humilde opinião, um pouco dos dois. São consequência porque, fosse outra a situação, não poderiam ser tão parciais. Fosse outra a situação, não poderiam ter emissoras que dedicam-se quase que exclusivamente à programação religiosa, ou o teriam, mas com pluralidade e equidade de condições. São causa porque os meios de comunicação ajudam na formação de pensamentos e valores sociais e morais brasileiros (uma vez que, no Brasil, a grande mídia é COMPLETAMENTE parcial, panfletária e doutrinária, não cumprindo jamais seu papel para com a verdade e os fatos). São causa e consequência, principalmente, porque incutem moralismo, conservadorismo e preconceito nas cabeças da população, por meio de esteriótipos e tendenciosidades, enquanto tentam parecer "libertárias" e neutras, condenando apenas quem e o quê lhes convém.

A luta pela democratização e laicidade do Estado é extremamente justa e válida. Entretanto, a meu ver, tão importante quanto é a luta pela democratização e laicidade da mídia - uma é causa e consequência do outro. De acordo com David Harvey, geógrafo, qualquer revolução só pode se suceder caso trabalhe-se em conjunto sete esferas de desenvolvimento: Tecnologias e Formas de Organização, Processo de Produção do Trabalho, Concepções Mentais de Mundo, Reprodução da Vida Cotidiana e da Espécie, Arranjos Institucionais e Administrativos, Relações com a Natureza e Relações Sociais. Claro que este caso não se trata de uma revolução completa no modo de vida e de produção, contudo, entendo que qualquer mudança efetiva na sociedade deva passar, ainda que indiretamente, por todas estas esferas. A democratização e laicidade da mídia é, portanto, ESSENCIAL no ponto em que é responsável (causal e consequentemente) pelo desenvolvimento de, no mínimo, 3 dessas esferas diretamente (Relações Sociais, Concepções Mentais de Mundo e Reprodução de Vida Cotidiana), e de todas, indiretamente, sendo que estão todas interligadas.

Por fim, não acho que seja necessária uma reforma na igreja católica - é cultural, e não penso que se deva interferir nisto. Mas simplesmente que o Estado não deva esperar por posicionamentos da igreja, pois o problema fundamental, da base, continuaria - a dependência do aval moral religioso. A reforma deve ser feita fundamentalmente, no Estado, nos meios de comunicação e, portanto, na sociedade.

Quem está exercitando a tolerância, a bondade e o perdão: O papa ou índio? Eu aposto no índio.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Não precisa assistir pra saber o final

PUXA-PUXA

O que há de errado nas novelas de TV é que os amores, os ciúmes, os ódios, os sentimentos são muito compridos.., esticados que nem puxa- puxa... quando na vida real não há tempo para isso - mas é por isso mesmo que os espectadores as adoram.

                                                                             Mario Quintana - A vaca e o hipogrifo


Nunca gostei de novelas. Porque é muito rolo, sabe? Uma novela dura quase 1 ano. Um ano em que todos já sabemos que mocinho vai ficar com a mocinha no final. Um ano em que sabemos que terá um vilão querendo separá-los. Um vilão que sabemos que se dará mal ao final de um ano. Um ano que sabemos que será cheio de mal entendidos, desencontros e idas e vindas do mocinho e da mocinha, que ficarão juntos no final.


Nunca tive paciência pra tanto rolo. Pra tanto sentimento derramado, espalhado, enrolado.
Desenrola. Desencana. Deixa pra lá. Pra quê a mocinha fica chorando? Por que o mocinho não conta logo toda a verdade pra mocinha? Por que eles não sentam e conversam "que nem gente grande"? Nunca entendi. E nunca tive paciência pra tentar entender.

Pra quem é exagerado, não tem novela - Tem um curta. E quando muito um longa -  Mas nunca uma novela. Pra quem é passarinho, ama devagarinho, pra quem sabe que a vida é breve, e o amor mais breve ainda, não há Gloria Perez que salve. Porque as coisas acontecem assim: repentinamente; e tão de repente quanto, acabam. O amor é fogo, que dura uma fogueira, um acampamento, e depois são só cinzas - assim, de repente, não mais que de repente.



domingo, 21 de julho de 2013

O Melhor Post do Mundo

Não lembro onde, e nem de quem, ouvi que elogios são lubrificantes sociais. Talvez tenha sido em "Memórias Póstuma de Brás Cubas". Enfim, o fato é que são mesmo. Parece que muitas vezes nos sentimos obrigados a elogiar algo ou alguém, seja por educação, por empatia, ou simplesmente por puxa-saquismo. Aliás, muitas pessoas sentem a necessidade de elogios para se auto-afirmarem. É como aquela menina, que posta uma foto no Facebook com a legenda "Estou feia", para que tenha 50 comentários dizendo o quanto ela é linda. Elogios são vazios - se não o fossem, se chamariam "verdade". Elogiar serve para massagear o ego alheio, e como vivemos numa sociedade onde tudo, inclusive os serviços públicos, se pautam por "pessoalidade", onde o indivíduo e suas vontades tem mais importância que o coletivo, a serventia do elogio passa ser, antes de tudo, a lubrificação das relações sociais.

Nunca soube lidar com elogios. Talvez porque eu saiba a real intenção por trás deles, ou talvez por ser segura demais, ou talvez os dois.

Existem vários tipos de elogios: Tem o elogio do puxa-saquismo, o sincero da falta de conhecimento, o do prêmio de consolação e, o mais raro de todos, o verdadeiro.


O Elogio Puxa-Saco

Esse tipo de elogio é um dos que mais me irrita, perdendo apenas para o "Prêmio de Consolação". Odeio puxa-saquismo. Primeiro porque quem o faz parte do princípio que você é tão idiota a ponto de se deixar comprar por elogios. Segundo porque é recheado de segundas e terceiras intenções, e quem o faz parte, de novo, do princípio de que você é idiota o suficiente para não percebê-las. E terceiro porque é perigoso: vai que quem os recebe é idiota mesmo, e acredita? Corre o risco torná-los empecilhos para seu crescimento pessoal, construindo situações ilusórias - de que tudo está perfeito como está, de que não há no que melhorar - e dando base para conformismos.


O Elogio Sincero da Falta de Conhecimento

Uma linha tênue separa este tipo de elogio do anterior. O Elogio Sincero da Falta de Conhecimento não é feito com má intenção; pelo contrário, é sincero. O problema é que quem o fala não tem conhecimento sobre o assunto, e pode levar quem o ouve à mesmíssima ilusão provocada pelo anterior, que barra o crescimento pessoal. Não é porque um elogio é sincero, que é verdadeiro. Este tipo de elogio não me irrita e nem me alegra - simplesmente não me afeta.


O Elogio "Prêmio de Consolação"

Esse tipo de elogio tem o dom de me enfurecer, de me tirar do sério! Não que ele seja feito com maldade, pelo contrário - o intuito deste tipo de elogio é fazer quem o ouve se sentir melhor. Equivale a um "não fique triste", "nem tudo está perdido", "veja o lado bom", "mas pelo menos...". O problema deste elogio é justamente esse: a consolação. E justamente isso é perigoso: O elogio, além do risco de barrar o crescimento pessoal, pode servir também de muleta. A mim irrita porque quem o faz parte do princípio de que você precisa ser consolado. Enfie sua pena, dó e sua consolação no cú, porque eu não preciso dela! Cara, como eu odeio este tipo de elogio.


... E por último, o elogio verdadeiro
Há apenas uma diferença entre este e o "elogio sincero da falta de conhecimento": a realidade. Este elogio, é tão sincero quanto o outro, com as mesmíssimas boas intenções, entretanto condiz com a realidade. Não é lindo? Além de fazer bem pra alma e pro coração, este é o único tipo de elogio que ajuda no crescimento pessoal, pois te dá uma noção de "evolução" e de suas potencialidades. É o único tipo que gosto de receber. 
Ser seguro de si torna todos os outros tipos de elogios desnecessários. Porque se você tem plena consciência de suas qualidades e seus defeitos, não precisa que alguém os reforce ou simplesmente ignore. Segurança traz uma blindagem contra muletas e ilusões.

Ainda há um quinto tipo de elogio: o irônico - mas este nem é bem um elogio, né? E quem não entende uma ironia, tampouco entenderá uma longa explicação!

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Podia ser Antropofagia Geral, mas é Harvey.

Depois de deixar à todos cientes do meu relacionamento com o "O Enigma do Capital", de David Harvey, e em consideração aos meses passados, aos momentos felizes e aos tristes, resolvi meio que fazer uma "resenha". Digo "meio que fazer uma resenha", porque não vou bem escrever sobre o livro - vou transcrever. Transcreverei alguns trechos do último capítulo "O que fazer e quem vai fazê-lo" e do Epílogo, que, na minha opinião, poderiam muito bem estar falando sobre os últimos acontecimentos e sobre a conjuntura político-social brasileira hoje.

Mas aí já é vandalismo...

"Também seria reconfortante pensar que tudo isso poderia ser conseguido pacificamente e de forma voluntária, que nos despossuiríamos a nós mesmos (...) Mas seria falso imaginar que isso poderia ser assim, que nenhuma luta ativa estaria envolvida, incluindo certo grau de violência. O capitalismo veio ao mundo, como Marx certa vez disse, banhado em sangue e fogo. Embora possa ser possível fazer um trabalho melhor para sair dele do que ficar dentro dele, as chances de uma passagem puramente pacífica para a terra prometida são baixas."


Mamãe, não quero ser prefeito!

"Existem várias grandes correntes de pensamento conflituosas na esquerda quanto à forma de abordar os problemas com que hoje nos confrontamos. Há, acima de tudo, o sectarismo habitual, decorrente da história e de ações radicais e as articulações da teoria política de esquerda. Curiosamente, o único lugar onde a amnésia não é tão prevalente é dentro da esquerda (as cisões entre os anarquistas e os marxistas que ocorreu na década de 1870, entre trotskistas, maoístas e os comunistas ortodoxos, entre os centralizadores que querem comandar o Estado e os antiestadistas autonomistas e os anarquistas). Os argumentos são tão ressentidos e tão turbulentos que às vezes nos fazem pensar que um pouco mais de amnésia ajudaria. Mas além dessas seitas tradicionais revolucionárias e facções políticas, todo o campo de ação política sofreu uma transformação radical desde a década de 1970. O terreno da luta política e das possibilidades de política mudou, geograficamente e organizacionalmente."

"A teoria correvolucionária anteriormente apresentada sugeria que de forma alguma uma ordem social anticapitalista poderia ser construída sem a tomada do poder do Estado, transformando-o radicalmente e retrabalhando as estruturas constitucional e institucional que hoje apoiam a propriedade privada, o sistema de mercado e a interminável acumulação de capital. A concorrência interestatal e as lutas geoeconômica e geopolítica por tudo, desde o comércio e dinheiro até questões de hegemonia, também são importantes demais para serem deixadas para os movimentos sociais locais ou postas de lado como sendo grande demais para serem contempladas. (...) Ignorar o Estado e a dinâmica do sistema interestatal é, portanto, uma ideia ridícula demais para ser aceita por qualquer movimento revolucionário anticapitalista."

"A terceira grande tendência advém da transformação que vem ocorrendo na organização do trabalho tradicional e na organização dos partidos políticos de esquerda, variando desde tradições social-democratas até trotskistas mais radicais e formas comunistas de organização de partidos políticos."



O governo PSDBista de Dilma (ou a social democracia do PT)

"Tanto o trabalho organizado quanto os partidos políticos de esquerda tomaram bons golpes no mundo capitalista desenvolvido ao longo dos últimos trinta anos.Ambos foram convencidos ou coagidos a dar amplo apoio ao neoliberalismo, ainda que este contasse com contornos mais humanos."

Não são só os 20 centavos!

"(...) Em boa parte do mundo capitalista avançado, após um flerte inicial com um renascimento do keynesianismo, a crise da dívida soberana tornou-se uma desculpa para a classe capitalista desmantelar o que sobrou do Estado de bem-estar por meio de uma política de austeridade. O capital sempre teve dificuldades em internalizar os custos da reprodução social (a assistência a crianças, doentes, deficientes e idosos, os custos da previdência social, educação e saúde). Durante os anos de 1950 e 1960, muitos desses custos foram internalizados diretamente (planos de saúde e pensões corporativos) ou indiretamente (serviços financiados por impostos para a população em geral). Mas todo o período de capitalismo neoliberal após meados dos anos 1970 foi marcado por uma luta do capital para livrar-se de tais encargos, deixando a população buscar suas próprias maneiras de adquirir e pagar por esses serviços. Como nós nos reproduzimos é, fomos informados por poderosas vozes de direita na política e na mídia, uma questão de responsabilidade pessoal, não obrigação do Estado.
(...) A ênfase na austeridade é, portanto, um passo adiante por esse caminho em direção à personalização dos custos de reprodução social. O assalto ao bem-estar da população coloca o Estado em rota de colisão, não só com os últimos redutos de sindicatos em muitos países, os sindicatos do setor público, mas também com as populações mais diretamente dependentes da provisão estatal (como estudantes, de Atenas a Paris, Londres e Berkeley). O assalto provocou tamanhas revoltas que até mesmo o FMI tentou avisar os governos mais entusiastas da direita que corriam o risco de provocar uma grande agitação social. Os crescentes sinais de agitação na Europa a partir do outono de 2010 sugerem que o FMI pode estar certo." - Hoje, mais do que nunca, sabemos que estava.


20 centavos a menos na passagem e desoneração para as empresas de transporte. Que vantagem Maria leva?

"Mas o repasse dos custos às pessoas em benefício do grande capital sempre esteve na agenda da direita e da classe capitalista. O presidente Ronald Reagan criou um enorme déficit nos anos 1980 numa corrida armamentista com a União Soviética. Ele também cortou a taxa de imposto sobre os maiores salários nos EUA de 72% para quase 30%. Como seu diretor de orçamento, David Strockman, confessou mais tarde, o plano foi aumentar a dívida e depois usar isso como desculpa para diminuir ou demolir a proteção social e os programas sociais. O presidente George Bush, o jovem, outro republicano, com o apoio de um Congresso controlado por republicanos, seguiu o exemplo de Ronald Reagan à risca. Ele transformou o que tinha sido um excedente orçamental no fim dos anos 1990 em um enorme déficit entre 2001 e 2009, ao travar duas guerras por escolha, ao aprovar um pacote de medicamentos destinados ao sistema públicos que foi um presente às grandes empresas farmacêuticas e ao oferecer cortes fiscais maciços para os ricos. O corte de impostos, disse o pessoal do governo Bush, se pagaria à si próprio com a aceleração do investimento. Não o fez (apenas aumentou a especulação). (...) Agora as guerras custaram 2 trilhões de dólares ou mais, mas não levou a qualquer reação nos anos Bush, porque como o vice-presidente Dick Cheney gostava de dizer, 'Reagan nos ensinou que os déficits não importam'.
(...) O assalto ao bem-estar social das massas deriva do incessante impulso de preservar e valorizar a riqueza dos que já são ricos. (...) Em meio a um imenso clamor público por austeridade e cortes no déficit, os republicanos lutaram com sucesso para estender os cortes fiscais de Bush. Isso dará 370 mil dólares por ano para os 0,1% mais ricos dentre os contribuintes nos Estados Unidos e aumentará o déficit em 700 bilhões de dólares nos próximos dez anos. Enquanto isso, em alguns municípios fecharam sua delegacias e unidades de corpo de bombeiros e, em casos extremos, desligaram a iluminação de rua por falta de fundos. Imagine o caos que se seguiria se tais políticas de corte orçamentário draconianas chegassem às grandes cidades com populações já impacientes. Isso é política plutocrata no seu pior."



Mudando de assunto, a Questão Indígena.

"A voracidade chinesa por matérias-primas não apenas mudou os termos de comércio em favor dos produtores de matéria-prima, mas também desencadeou uma intensificação na concorrência a longo prazo entre Estados, empresas e indivíduos ricos pelo controle da terra, recursos naturais e outras fontes de renda cruciais. A política de despossessão que equivale a uma vasta aquisição global de propriedades, em grande parte do continente africano, América Latina, na Ásia Central e no que resta das regiões vazias do Sudeste Asiático, tem sido indiscutivelmente liderada pelos chineses, recém-chegados a esse campo tradicional entre potências e corporações. Mas mesmo internamente nos Estados, a despossessão de populações inteiras, como já vem ocorrendo nas regiões ricas em minerais no Centro e Nordeste da Índia, tem se dado com rapidez, apesar da resistência dos povos indígenas. Há, ao que parece, muitos interesses que têm a intenção de proteger uma arca sagrada do capitalismo, na medida em que aumenta o  risco de um colapso econômico futuro."


Achei um vídeo também, muito legal, que dá uma baita resumida na teoria exposta nos 3 primeiros capítulos do livros. Está bem resumido e didática, já que está em forma de animação. Vale a pena ver:




"O Enigma do Capital e as Crises do Capitalismo", de David Harvey, foi escrito entre o final de 2009 e o começo de 2010, e teve sua primeira edição em novembro de 2011 pela editora Boitempo.

terça-feira, 16 de julho de 2013

A Festa do Povo

Dia Nacional de Lutas, 11 de Julho de 2013
... E estou há quase uma semana sem postar. Aconteceu tanta coisa nesses últimos dias, que acabou não sobrando muito templo pro blog. Além da correria, tem também o efeito "Manifestações de Junho" - Tenho lido tantas coisas diferentes, pensado tanto sobre tudo, que são tantas pautas, que estava sem uma pauta específica para postar no blog.

Decidi-me por falar, ainda das manifestações de junho, mas desta vez em julho. Porque estou voltando ao tema? Porque, bem, é mais fácil avaliar de fora. Além do mais, quero falar das conquistas, que são coisas que só podem ser vistas depois dos acontecimentos. Falemos, então:

Tenho tido uma postura extremamente pessimista com relação às manifestações. Principalmente depois da tentativa direitista de manipulação das pautas, por meio da ausência destas. Mas depois dos desdobramentos, da poeira mais baixa, e da chegada de julho pude visualizar as conquistas e as derrotas com um pouco mais de clareza e otimismo.

A maior conquista não foram os 20 centavos. A maior conquista foi a população ver que pode se unir em prol de um objetivo (pauta!) e alcançá-lo. Foi o repentino interesse por política de uma considerável parte da população (não digo politização, porque aí já é otimismo demais haha). A política, antes um tema "indiscutível", junto com religião e futebol (!), agora passou para o topo das discussões populares! E isso é bom, isso é muito bom. Porque não há passo maior para o aprendizado do que o interesse, a disposição. Foi também, depois da quinta 13, um maior debate sobre a polícia militar e sua forma de agir.

Entretanto, a conquista mais importante de todas, na minha opinião, foi a conquista das ruas. O espaço urbano, foi, em decorrência do processo de privatização e gentrificação da terra, e da repressão cada vez maior do Estado e do capital, que empurrou o povo para a periferia, "privatizado". A cidade não era mais do povo! O povo perdeu o direito à cidade gradualmente, à cada muro construído, à cada despejo, à cada shopping, à cada novo condomínio, à cada avenida construída, à cada vinte centavos de aumento.

Contudo, tivemos nessas manifestações a retomada da cidade! A rua é nossa! A cidade é nossa! Podemos, sim, PODEMOS, nos reunir, protestar, e andar por quaisquer vias e lugares! Desde uma ruela de bairro à Avenida Paulista, porque a cidade nos pertence!

O povo retomando o que é seu, é lindo! Lembro-me  de dois momentos e pude percebê-lo: Um, foi na segunda-feira 17, quando estava na Paulista, tomada de pessoas, e encontro dois amigos (que nem se conhecem) cada qual conversando, brincando, fumando com seus outros amigos, enfim utilizando a rua (melhor do que os carros). Foi como ver o "meu mundo", tomar o "mundo dos carros e das pessoas estranhas". O outro, foi num determinado dia, não lembro qual, em que fui para a Paulista com dois objetivos: participar de uma manifestação organizada pelos movimentos de esquerda, e depois para participar de uma "Aula Pública" no vão do MASP. E qual não foi a linda surpresa que tive, quando me deparei com a Paulista fechada? Estávamos tendo: A manifestação dos médicos contra a vinda de profissionais cubanos, de profissionais da saúde contra o ato médico, dos movimentos de esquerda contra a Copa do Mundo e a aula pública no MASP (talvez eu tenho deixado passar alguma, mas enfim). Por mais que eu não concorde com o motivo da manifestação dos médicos coxinhas (ops!), achei fantástico o modo como a Paulista estava tomada novamente, por diversas manifestações. O modo como agora realmente sentimos que a Paulista é nossa, que o MASP é nosso, que São Paulo é nossa. O modo como podemos simplesmente nos juntar para protestar e sair andando pelas vias da cidade, simplesmente porque sentimos e sabemos que podemos!

Na minha opinião, não houve ganho maior do que a retomada da cidade.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Não tô

Hoje, não tô pra Marx.
Nem pra Marx, nem pra Engels.
Avise o Sr. Nietzsche
que saí com Pessoa
sem hora pra voltar.
Mande Schopenhauer pastar o jardim do Sr. Freud.
Anote o recado de Hobsbawm
junto com o de Bauman
E diga que ligo mais tarde.
Hoje, estou apenas para Quintana.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Ah, Bruta Flor do Querer!

Segundo Schopenhauer vivemos num ciclo de vontades, em que desejamos, nos saciamos e nos enfadamos... até que desejemos de novo. Para ele, somos uma vontade, vivemos uma vontade, que nunca será saciada por completo.

Há quem diga que são as vontades que movem o mundo, Schopenhauer inclusive, eu inclusive. Mas, na minha opinião, o que realmente promove mudanças verdadeiras no "status quo" é a coincidência de vontades. Vontades unilaterais causam no máximo agitação, turbulência, transtorno. Cazuza foi um gênio quando disse "que coincidência é o amor". Porque o amor, realizado e não platônico, é isso: uma coincidência de quereres.

Falando em quereres, outro gênio, que também sabe do que falo (e do que não falo), é Caetano. Em uma música chamada "O quereres", ele trata dessa "desconexão de vontades":

"Onde queres o ato, eu sou o espírito
E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo
E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói
E onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução
E onde queres bandido, sou herói

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és"

Desencontros de quereres são extremamente prejudiciais a quem muito quer. Podem causar decepções, desilusões, feridas, mágoas e tristezas. Claro que o querer demais pode ser bom, mas apenas se algum dia houver uma coincidência. Porque o querer de menos é fraco: depende da sorte. O querer demais também depende da sorte, mas, falando em probabilidade agora, se jogarmos uma moeda apenas uma vez, temos apenas uma chance para que dê cara, mas se a jogarmos 10 vezes, temos 10 chances. Pode ser que nas dez vezes dê coroa, mas vai que, por algum acaso, por algum descuido do destino, dá cara? Bem sabe Jobim, que a hora do "sim" é o descuido do "não".

Fazendo uma conexão com as consequências de desencontros de quereres, temos a mudança de quereres. Às vezes queremos muito, queremos tanto, com tanta intensidade que consumimos o querer de 10 anos em 10 dias. Acabamos fazendo promessas malucas, como trazer mil rosas roubadas, que se tornam tão curtas quanto um sonho bom. Quando o querer é demais, não tem essa de pra sempre - é querer até deixar de querer. Porque querer que arde sem se ver, não tem como ser imortal, posto que é chama; é, portanto, infinito enquanto durar...

O desencontro de quereres no auge da "exageradice" é, logo, muito nocivo. É uma ruptura. É abrupto. É muito querer pra muita indiferença. É querer demais, pra quem tanto faz. Quanto menor a diferença de quereres, mais fáceis as coisas. Quem vai saindo aos pouquinhos, causando um quererzinho a menos a cada partida, uma hora não tem mais querer nenhum. Porque sair à francesa não causa tristeza e nem nada, além de um fim de tarde a mais.

Como diz Shakespeare, alegrias violentas, têm fins violentos, falecendo no triunfo, como fogo e pólvora, que num beijo se consomem. Bom mesmo é fazer como Quintana, querer bem devagarinho, porque a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Pra não dizer que não falei das flores

Frente ao post que deixei aqui ontem, achei muito interessante postar este texto escrito pelo deputado Jean Wyllys, do PSOL. Ainda há esperança, e cabeças pensantes e sensatas:
 
"A reunião que eu não tive com Dilma

Depois de protestos que mobilizaram mais de um milhão de pessoas em distintas cidades do Brasil, o governo e nós, o Congresso Nacional, começamos, bem ou mal, a reagir às reivindicações apresentados.
No Congresso, uma das primeiras reações foi a rejeição da PEC-37 pela Câmara dos Deputados. Mas é preciso lembrar e ressaltar que até duas semanas atrás a oposição a essa PEC eram minoria na Câmara e nós, que éramos contra, teríamos perdido a votação caso ela fosse votada antes das manifestações, como perdemos as votações contra a Lei da Copa (só o PSOL votou contra), o Código Florestal e a pavorosa lei que define a nova política nacional de drogas - que, entre outros absurdos, legaliza a internação compulsória de usuários de drogas em comunidades terapêuticas tocadas por igrejas evangélicas.
Bom, a Câmara também já praticamente jogou no lixo da história o estúpido projeto de legalização da "cura Gay" do deputado João Campos (PSDB-GO), aprovada na Comissão de Direitos Humanos e Minorias, que, após ser tomada por fundamentalistas cristãos, hoje atua no sentido de violara os DHs das minorias.
Fico feliz por esse projeto praticamente ter ido parar no lixo porque há tempos venho lutando contra ele. Mas não me esqueço de que, antes de o povo sair às ruas, o projeto avançava sem que os partidos majoritários fizessem nada para freá-lo.
Era por essas e outras questões que eu gostaria de ter ido à reunião para a qual nos convidou – nós, a bancada do PSOL - a presidenta Dilma Rousseff.
Após os protestos e a queda de sua popularidade, ela convocou as bancadas das oposições para uma conversa - algo que já deveria ter feito. Porém, infelizmente, a executiva do meu partido, o PSOL, decidiu que nossa bancada não participaria da reunião. Acatei a decisão porque acredito no sistema democrático e ela foi votada pela maioria da direção eleita pelos filiados. Mas pessoalmente discordo dessa decisão; acho-a um tremendo equívoco.
Nossos papéis como parlamentares da oposição de esquerda ao governo Dilma - mas, antes disso, republicanos - é fiscalizar o governo, fazer propostas alternativas no Congresso e contribuir, através do jogo democrático, para que o governo ouça as vozes das ruas.
É isso que eu faço desde que sou deputado: tento levar ao Congresso a voz de milhares que nunca foram ouvidos porque nunca tiveram alguém que os representasse.
Ter ido à reunião com a presidenta não significaria deixar de ser oposição de esquerda. Seria, antes, um gesto republicano e uma boa oportunidade para dizer à presidenta (e ao país) a que nos opomos e quais propostas alternativas temos para responder às demandas da população. Muitas das bandeiras que encheram as ruas nas últimas semanas são bandeiras que o PSOL defende há muito tempo.
Nós perdemos muitas votações no Congresso dizendo o que agora dizem milhares de brasileiros em cartazes escritos à mão.
Por isso, através deste texto, quero expressar o que eu gostaria de ter podido falar com a presidenta. Ela, apesar da queda na popularidade, ainda é a autoridade maior dessa nação e, como tal, merece, no mínimo, respeito mesmo de quem a ela se opõe em questões pontuais.
Direitos humanos e minorias. O Brasil atravessa um momento crucial na sua história, mas anda na contramão. Assistimos aos assassinatos de mais de 300 gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais por ano - violência dura antecedida pela violência simbólica da discriminação social, difamação e injúrias - enquanto projetos de lei que visam combater a homofobia em suas diferentes expressões dormem nas gavetas do Parlamento.
Também há, infelizmente, outros projetos, da bancada fundamentalista, que propõem a homofobia como política de Estado.
Qual é a posição do governo federal sobre essas e outras iniciativas? Presidenta, a senhora precisa se posicionar.
Enquanto Barack Obama festeja a decisão da Corte Suprema de Justiça dos EUA a favor do casamento igualitário e François Hollande parabeniza o Congresso francês por aprovar a lei que reconhece esse direito, partidos aliados ao governo federal tentam derrubar as decisões do STF e do Conselho Nacional de Justiça que permitiram regulamentá-lo no Brasil e a bancada governista não aceita debater os projetos que apresentei na Câmara junto com Érika Kokay (PT) para que o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo seja garantido na lei.
Presidenta, os fundamentalistas aliados seus e os da oposição de direita querem que o Brasil se pareça ao Irã. A senhora precisa dizer claramente que não quer isso. Ou quer?
Na Argentina, o posicionamento público corajoso da presidenta Cristina Kirchner permitiu que as leis da igualdade fossem aprovadas e ajudou a instalar um debate na sociedade que permitiu reduzir a homofobia e a violência de uma maneira que nenhuma lei penal conseguiria em tão curto prazo. O PLC-122 deve ser aprovado, mas o direito penal não resolve tudo (e sabemos a seletividade social e racial com a qual ele age), por isso eu sou partidário de combater o preconceito com educação e ampliação de direitos.
Presidenta Dilma, a senhora precisa se colocar do lado dos direitos humanos e da igualdade (e isso é até uma obrigação decorrente do seu cargo, porque o Brasil é cossignatário de vários tratados internacionais que o obrigam) e dizer, com todas as letras, que o casamento igualitário e a lei de identidade de gênero devem ser aprovados, que a homofobia deve ser combatida e que a Comissão de Direitos Humanos não pode se submeter ao fundamentalismo racista, machista e homofóbico de um deputado que envergonha o Brasil.

A senhora tem a responsabilidade de executar políticas públicas contra a discriminação na saúde e na educação, e isso o governo até agora não fez. O Brasil era exemplo no mundo pela política de prevenção do HIV e pela cobertura universal dos tratamentos (serviços de saúde, distribuição de remédios, etc.), mas todas essas políticas foram prejudicadas pela presença de fundamentalistas no governo federal, mesmo o sexto Objetivo do Milênio sendo combater o HIV/Aids, a malária e outras doenças.

Considerando o aumento no número de jovens LGBTs infectados, o governo não pode continuar censurando as campanhas de prevenção que os têm como destinatários. Presidenta Dilma, a saúde da população deve voltar a ser prioridade. Será que é possível fazermos um pacto federal que faça dessa necessidade uma política de Estado?

Estado laico e tolerância religiosa. O debate sobre o Estado Laico muitas vezes é associado à luta da população LGBT, e isso está certo, mas é um olhar incompleto sobre o assunto.

Nós, gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, sofremos a injúria, os insultos e o lobby dos fundamentalistas contra nossos direitos civis, mas também o sofrem outras minorias cujas vozes são muitas vezes silenciadas, como o povo de santo.
As religiões de matriz africana são injuriadas e discriminadas e o Estado as trata como religiões “de segunda”, sem o respeito (e os privilégios) que recebem as principais religiões monoteístas. Presidenta, precisamos acabar com isso. Nosso povo tem parte de suas raízes na mãe África (que, segundo um deputado da base aliada, é um “continente amaldiçoado”), mas ainda sofre o racismo que herdamos da Colônia, e que hoje ressurge com vigor graças ao avanço do fundamentalismo.
A luta contra o racismo deve incluir políticas afirmativas (como as cotas, que são um grande avanço), políticas educativas, políticas culturais que deem espaço às manifestações artísticas do povo negro e políticas de combate à intolerância religiosa que visem o respeito e o reconhecimento do valor do candomblé na nossa cultura.

Educação e inclusão. O governo propôs que 100% do dinheiro dos royalties seja destinado à educação. Eu concordo. Presidenta Dilma, conte com meu apoio para isso, desde que fique claro que estamos falando da educação pública e não de subsídios públicos para a educação privada.

Mas isso só não basta.
O governo federal e os governos estaduais e municipais precisam investir agora, já, para melhorar a qualidade da educação pública, começando pelo salário dos professores, que em muitos casos é vergonhoso.
Por que não propor um pacto federal pelo salário do professor e pela inclusão educativa?

Precisamos investir na ampliação da rede de educação pública, terminar com as barreiras que impedem às classes populares ingressar na universidade (quando vamos discutir, no Brasil, o ingresso irrestrito?), mas também investir para nivelar o sistema, para que exista um "padrão FIFA" de qualidade em todo o Brasil e não uma educação para pobres e outra, para ricos.
Igualar as condições de acesso à educação é o primeiro passo para que a mobilidade social não seja, apenas, uma questão de consumo, mas de desenvolvimento humano.
E precisamos, presidenta, que a escola seja o lugar onde se combatam o racismo, a homofobia, o machismo, a intolerância religiosa, etc. É na escola que vamos formar as futuras gerações para construir um Brasil sem preconceito. A senhora precisa entender que isso é mais importante para o futuro do país que o palanque de um pastor fundamentalista na próxima campanha.

Reforma política? Claro que nós, do PSOL, somos a favor da reforma política. Mas qual reforma política? Na minha opinião, o primeiro passo dessa reforma deve ser o financiamento público exclusivo das campanhas.

A democracia nunca será realmente eficaz se um candidato honesto só pode ter uma campanha pobre (e, portanto, sem levar suas propostas à maioria da população) e um candidato apoiado pelas grandes empresas e corporações pode fazer uma campanha milionária, para depois favorecer, no governo, as empresas que o apoiaram.
A corrupção, muitas vezes, começa na campanha, quando o candidato aceita dinheiro de tal o qual empresário com interesses que dependem do cargo para o qual concorrem.

Precisamos terminar com as legendas de aluguel que se usam apenas para somar minutos de tempo de tevê e permitem que um monte de pilantras chegue ao Congresso e aos ministérios em troca disso. Para isso, precisamos democratizar o tempo de teve, com regras que não favoreçam esse tipo de especulação desonesta.
A primeira reforma política, presidenta, é fazer o sistema mais transparente e democrático, e para isso, a senhora vai ter de enfrentar os interesses de muitos partidos, corporações e grupos de poder que a apoiam. São os mesmos que impedem que sejam feitas muitas das coisas que citei como exemplo neste texto.

São, repito, apenas exemplos.
Se a senhora propor verdadeiras mudanças, contará, com certeza, com a bancada do PSOL. A senhora já sabe como funciona, na prática: quando seus projetos têm o apoio da oposição da direita, porque são projetos de direita, nós votamos contra, e quando nós apoiamos, é a oposição de direita que se opõe. O primeiro acontece com mais frequência, mas a escolha não é nossa.
O Brasil está exigindo mudanças, e isso é uma oportunidade.
Mas, se tudo continuar como até agora, nós continuaremos na rua, junto ao povo, lutando contra o conservadorismo que alguns escolheram para se manter no poder."

terça-feira, 2 de julho de 2013

Mamãe, não quero ser prefeito!

É, caros amigos, não tem jeito, não consigo ficar longe da política por mais do que um final de semana e uma segunda-feira chuvosa. São tantos assuntos a tratar... Mas nos limitemos hoje a um em particular: O sectarismo da esquerda.

Todos que me conhecem, ou lêem qualquer das coisas que escrevo, não têm a menor dúvida do meu posicionamento político: Esquerda. Mas o fato de ser esquerdista nunca me eximiu de fazer críticas a atitudes de partidos de esquerda, pelo contrário - declaro-me apartidária (não anti, veja bem), pois adquiro certa independência dessas posições que, nem sempre, estão de acordo com as minhas. Ultimamente, aliás, o posicionamento de alguns partidos de esquerda tem me incomodado muito, e é disto que trataremos hoje.

A esquerda no Brasil é fragmentada (nenhuma novidade), e é justamente por isso que é tão fraca. Há vários partidos de esquerda que possuem tênues diferenças, mas insistem em pautar-se pelas diferenças e não pelas semelhanças, recusando-se a unirem-se em prol de seus objetivos comuns. Teimosia e burrice. Por que a direita tem tanto poder atualmente? Porque, apesar de suas diferenças, se unem em prol de seus objetivos: a manutenção da diferença de classes e o capital.

Confesso que fiquei muito esperançosa de uma conscientização por parte dos partidos de esquerda dessa necessidade da "unidade", da formação de um "bloco da esquerda", quando em ocasião dos protestos, a ultra-direita começou a se mostrar. O discurso em uníssono de partidos e movimentos de esquerda, e as diversas reuniões entre estes, com o objetivo de pensarmos juntos num rumo a tomar, foi extremamente animador! E eu não estava errada, a esquerda agora está realmente mais uníssona e unificada... pela teimosia.

Não poderia pensar em melhor proposta para esse momento político, do que o lançamento da Reforma Política. Foi uma jogada de mestre! Algo que já se veem querendo implantar, uma bandeira com a qual toda esquerda sonha há décadas, finalmente tem a chance de ser emplacada! Num momento normal, sem estas manifestações, o Congresso jamais aprovaria algo que pudesse lhe "prejudicar" de alguma forma. E, agora, com a insurgência popular, este fica pressionado, dando-nos a chance de conquistar esta vitória.

Para os que não sabem, a Reforma Política consiste, entre outros pontos, no fim do financiamento privado dos partidos, na presença de lista fechada para eleições, na possível mudança na modo de representatividade das eleições, no fim das "coligações-relâmpago" e na insitência pela fidelidade partidária. Há tantos benefícios a comentar sobre esta Reforma, que faz-se necessário um post só para ela. Limitemo-nos a dizer que seria um grande avanço democrático na forma de representação popular, dando mais poder ao povo, menos às empresas financiadoras de campanha e uma bela "quebra de esquema" da corrupção. Não digo que a corrupção vá acabar. Como dizia Platão: "Não há democracia sem corrupção" (Sad but true, dreamers), mas, pelo menos, esta teria seu espaço em nossa democracia muito reduzido.

A questão é que, agora, que há a chance de atingir uma das Reformas tão sonhadas pela esquerda, uma das pautas tão necessárias para atingirmos uma real democracia, os partidos dessa mesma esquerda posicionam-se contrários. COMO? Com um discurso alinhado, dizem que a proposição desta Reforma é mera "distração" e "desvio das principais reivindicações das manifestações". Amigos, me digam: QUAIS SÃO AS "VERDADEIRAS REIVINDICAÇÕES"? Há tantas que nem se sabe! A regulamentação do aborto ou o apoio ao Estatuto do Nascituro? Políticas sociais ou a redução da maioridade penal? Todas são bandeiras levantadas nessa "babel ideológica" que vem sendo construída. A real pauta, inicial e definida, já foi alcançada: A suspensão do aumento da tarifa de ônibus. Não há mais pauta definida. O único desejo que consigo enxergar em todas as correntes de pensamento é o de "um Brasil melhor". Tão vago e tão mais próximo, caso venha a ser aprovada a Reforma Política. Queridos camaradas, vocês estão tomando o mesmo posicionamento de partidos como o DEM e PSDB, fazendo oposição à Reforma. Isso não lhes assusta?

Além do discurso opositório, PCO, PSTU e PSOL (não sei se outros) recusaram-se a comparecer a uma reunião convocada pelo Palácio do Planalto, que pretendia reunir movimentos sociais e partidos de esquerda para um diálogo. Estes partidos, que tem acusado (e com razão) o governo federal de não abrir espaço para diálogo com movimentos sociais, recusam-se abrir-se a tal quando chamados? Contraditório? Infantil, na minha opinião! Birra de criança! Por mais que digam que "o governo federal não apresentará propostas concretas" e que este "quer defender lucros do empresariado", não há motivos para que se neguem ao diálogo. É contraditório e estúpido. Não queriam ser ouvidos? Está aí a chance, que acaba de ser jogada no lixo. O diálogo nunca faz mal. Na pior das hipóteses, sai-se do mesmo jeito em que se entrou - não há prejuízos. Entendo o PSTU se recusar, entendo mesmo. Até porque o partido tem como diretriz a "não crença nas vias democracáticas para efetivas mudanças, que só podem ser efetuadas por meio de revolução proletária". Agora, o PSOL? Bah! Quanto hipocrisia...

Às vezes tenho a impressão de que a atual esquerda gosta de seu título: Esquerda. Gosta de ser Gauche. Tem ojeriza pela situação. Quer ser do contra, não importando contra quê. Dói, dói muito em mim fazer este tipo de crítica a corrente ideológica a qual pertenço. Mas dói ainda mais ver atitudes estúpidas de partidos aos quais já pensei (penso) em pertencer e que tenho tanto carinho.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Poeminhando numa Tarde de Inverno

Chove lá fora
Aqui dentro faz Sol
Está tão frio lá fora!
40º a sensação
É inverno lá fora,
e aqui dentro, verão
Lá fora tem muita gente
Aqui dentro tem eu, tem você, seu calor, meu coração.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

...É erro de lógica!

" - O sistema tá dando bug."
" - Ah! É erro de lógica."

Quem já teve qualquer contato com programação está habituado com este tipo de diálogo. "Erro de Lógica" resume 50% dos erros de sistemas (looping, retornos errados, etc). É triste ouvir "Erro de lógica". Aliás, não sei o que é mais triste: ouvir isto quando se está ajustando o programa alheio, ou quando se está construindo o seu próprio. Acho que a segunda opção.

Fazer um programa, é como ter um filho - Você o acompanha desde a primeira linha de comando, até o último ponto. Todos os "ifs" e "elses", colocando cada ponto e vírgula, ajustando cada erro, criando variáveis auxiliares, enfim, tudo. Quando está pronto, é uma obra prima. Vê-lo rodando dá até aquela felicidadezinha e a sensação do "fui eu que fiz". O problema é quando dá erro de lógica: É uma frustração. É como se você fosse obrigado a reformular sua vida. A lógica, a ideia, os princípios a partir do qual você construiu tudo aquilo... estão errados. Haja baque! Haja autoestima para suportar este golpe! Mas o mais difícil é consertar. É tão difícil pensar "fora da caixinha", elaborar uma linha de pensamento totalmente nova, enxergar o quê, ali, naquela perfeição, está errado...

É essa a hora de pedir ajuda. Eu, geralmente, recorro à Descartes e aos amigos. À Descartes, porque, nesta hora, em que todas as suas certezas vieram por água abaixo, nada melhor do que o método cartesiano: Desconstruir todas as suas verdades, até chegar a uma verdade absoluta, e construir novas verdades a partir desta. Aos amigos, porque quando estamos dentro de uma situação, dentro de uma linha de pensamento que nós mesmos criamos, é difícil sair e ver o todo. Ficamos tão fechados por nossas viseiras de lógica, que não conseguimos ter visão periférica. Perdemos o macro por prestar atenção demais ao micro. E, talvez, uma outra pessoa, que não tenha a mesma lógica e nem as mesmas verdades, que não ande com nossas viseiras, consiga enxergar coisas óbvias e tão difíceis de serem por nós enxergadas. Talvez, uma segunda opinião, seja o interruptor de um quarto escuro.

A lógica é mesmo um problema. Porque quando você não a tem, não consegue programar - pode até jogar códigos a esmo, mas jamais terá um programa rodando. E quando a tem em excesso, corre risco de ficar preso na caixinha, de construir castelos e mansões, detalhadamente, baseados em lógica.... mas ai, se uma lógica na viga da base do castelo estiver errada! A lógica em excesso também pode nos deixar paranoicos. Sabe aquela coisa de "Deixa a vida me levar"? Não funciona com pessoas muito lógicas. Estas ficam procurando razões para tudo! Não aceitam que, na vida, algumas coisas aconteçam sem motivo, algumas pessoas surjam sem motivo e tão sem motivo vão-se embora. Tudo tem de ter uma explicação. Para as pessoas com excesso de lógica, é uma tortura não poder saber o que virá na próxima vez em for acionado o "random".

Eu poderia estar falando da minha vida, ou do momento histórico do país, mas ainda bem que estou falando apenas de programação.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Querê tapá o Sol com a penêra, é feidimais!

Mudando um pouco de assunto, voltemos ao feminismo. A Comissão de Transportes aprovou hoje (27/06) um projeto de lei que, a exemplo do Rio de Janeiro, cria vagões exclusivos para mulheres nos horários de pico (em dias de semana, das 6h às 9h e das 17h às 20h), na tentativa de coibir possíveis "assédios".

Na minha opinião, é um absurdo que um projeto de lei como este seja sancionado. Ao contrário do que parece, ele não preza pelos direitos das mulheres (ou de qualquer pessoa), e praticamente legitima o assédio sexual, que, infelizmente é corriqueiro nos trens e conduções lotadas. Este projeto trata o assédio como ago  normal e "impossível de se evitar", sendo mais fácil trancafiar as mulheres num vagão do que punir os assediadores. Me digam: Eu, como Estado, devo criar leis que punam ladrões e programas de educação social para que "roubos" não aconteçam, ou devo simplesmente trancar todos os pertences dos cidadãos com um cadeado, para que não sejam roubados? É a mesma lógica...

Sem contar a questão dos transportes, tão difundida atualmente. Me digam, senhores, e se uma lésbica, no vagão das mulheres, passar a mão em mim, não será assédio? Então qual problema será efetivamente resolvido com este projeto de lei? NENHUM, ao que me parece. Respeito é cabível a homens e mulheres, hetero ou homossexuais, estando num vagão vazio ou lotado. Ao Estado, cabe implantar projetos sociais e de educação cívica nas escolas, para suplantar de vez o machismo, e tratar o assédio como um CRIME, passível de punição como tal. Além de investir em transportes e mobilidade urbana (e quando falo em investir, não digo jogar mais dinheiro, mas trabalhar com PLANEJAMENTO urbano, que hoje é feito de forma quase que ocasional, à mercê do anseio de lucro das companhias de transporte). Porque, afinal, em vagão feminino, masculino ou misto, ninguém merece ir espremido e encoxado num vagão lotado. É esse o assédio que se deve coibir - o do Estado.

Senhores políticos, minha mãe sempre diz que o preguiçoso trabalha duas vezes, assim como o GRANDE Criolo diz que "Querê tapá o Sol com a penêra, é feidimais!". Os senhores deveriam ouvir mais Rap, e às vossas digníssimas mães.

Leia a matéria na íntegra aqui.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Como Cães e Gatos

É engraçado como sempre comparei a forma das pessoas se relacionarem  com o bicho que preferem. Por exemplo: gato e cachorro.

Quem gosta de cachorro não costuma entender o amor como algo livre e espontâneo. Porque o cachorro é amor devocional. Cachorro abana o rabo quando o dono chega - está sempre de bom humor, sempre correndo atrás do dono. Bata num cachorro, brigue com ele, e dois segundos depois, é ele que vai lamber sua mão, como se quisesse fazer as pazes. Pra começar que cachorro tem "dono", né? Já não é a mesma relação com gato.

Gato, é amor livre. Aquele amor que você dá, sem esperar nada em troca, e também recebe quando menos espera. Não dá pra forçar um gato a gostar de você: Ou ele gosta, ou não gosta. E quando ele gostar, vai demonstrar. Passe semanas fora, e ele não virá abanando o rabo pra você - ficará ressentido, magoado; terá de ser reconquistado aos poucos. Gato é orgulhoso, fica bravo se brigam com ele ou se o proíbem de algo. Mas a seu tempo, e a seu espaço, perdoa. Gato não tem dono, tem companheiro.

... E extendendo um pouco mais essa reflexão, esses dias, em casa, com meu gato, percebi que temos atitudes ainda mais comparáveis: Eu estava me arrumando, e ele ronronando e se esfregando em minhas pernas. Não que eu não o quisesse ali, ou que eu não o amasse. Só tinha coisas mais importantes para fazer. E continuei me arrumando e cuidando das minhas coisas, enquanto meu gato me dava carinho e pedia atenção. Quando ele se cansava e ameaçava ir embora, eu lhe dava um pouco de carinho (não queria perder meu bajulador), mas logo voltava aos meus afazeres. Assim, mantive meu gato ao meu entorno até que eu terminei de me arrumar e saí, sem em nenhum momento lhe dar, verdadeiramente, atenção. Foi então que percebi que fui uma filha da puta com meu Oliver, comparável a tantos filhos da puta por aí.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Antes, Durante e Depois

Demorei para escrever este post porque estava tentando fazer uma conexão entre o "antes" e o "durante", para poder construir um "depois". Tive de fazer uma extensa análise sobre panos de fundo que vem sendo tecidos, não hoje, e nem ontem, mas durante meses e anos. Depois, conectar estes panos ao atual desdobramento das manifestações, para assim construir uma previsão, ou, talvez, apenas um chute fundamentado.


Antes

Vamos analisar o pano de fundo dos atuais protestos: Insatisfação econômica devido à uma sensação de descontrole inflacionário, extremo descontentamento com a política e suas organizações, fortalecimento do discurso conservador, desconhecimento do funcionamento do Estado por parte de uma grande maioria e "endeusamento" do poder judiciário.

Este "painel de sensações" está sendo construído há anos pelos tecelões da opinião brasileira: A grande mídia. Vamos discorrer sobre esta "esplendorosa" construção midiática:

  • Inflação

    A inflação subiu? Subiu. Mas não estamos no descontrole que a mídia insiste em nos empurrar goela abaixo. O índice de inflação está batendo no teto da meta anual, MAS AINDA ESTÁ DENTRO DA META, e, portanto, sob controle. Entretanto, há tempos não se batia tanto nesta tecla, como se estivéssemos a níveis galopantes, rumo ao precipício pré-plano real. Sinceramente, a impressão que tenho é de uma imensa má vontade por parte da mídia e do empresariado em colaborar com as medidas econômicas do Governo. Pressionou-se, pressionou-se, pressionou-se, até que o BC cedeu e elevou a taxa Selic em 0,5, depois de um aumento de 0,25. Medida neoliberal e APENAS antiinflacionária, prejudicial ao desenvolvimento econômico e à população, e um alívio para o empresariado (é a essas pessoas que você dá ouvidos). O cúmulo do absurdo do sensacionalismo midiático foi o festival feito em torno da alta do tomate, cujo assunto virou até capa de revista, sendo que o aumento estava muito mais vinculado à questões de safra do que à inflação. Podemos ver que há um IMENSO abismo na diferença entre a inflação REAL e a inflação IMAGINÁRIA. Para os desavisados, a inflação "galopante" dos dias de hoje é quase metade da que tínhamos nos dias de FHC.

  • Descontentamento Político e Superlativização do Judiciário

    Este é outro tópico em que a mídia nacional vem trabalhando árduamente. O "escândalo do mensalão", que nem de longe é o maior caso de corrupção do Brasil, é uma prova disso. Bateram, bateram, bateram nesta tecla, entretanto a aprovação do Governo Dilma continuava altíssima. Que fazer então? Ressucitar o fantasma inflacionário, que ainda assombra os que lembram ver seu salário diminuindo com o passar da semana. Empenhados em passar a imagem de que "políticos não prestam", os veículos de comunicação em massa precisam de um salvador da Pátria. E quem melhor do que o "Batman do judiciário", Joaquim Barbosa? Os mesmos veículos que tem trabalhado no "Show do Mensalão" construíram o endeusamento do Presidente do STF, e fortaleceram o próprio órgão, como se juristas autoritários e burocráticos fossem a solução de todos nossos problemas.
    O STF, que, a meu ver, defende quase sempre interesses elitistas, tem ganhado cada vez mais poder, tanto por respaldo midiático, quanto pelas mãos-de-ferro centralizadoras e ansiosas de poder de seu presidente. A prova maior de que não se defende a democracia nem no judiciário e nem na mídia, é a intensa repulsa pela PEC 33, projeto que prevê maior participação popular nas decisões referentes à inconstitucionalidade de leis, e, não, não tira este poder do judiciário, apenas verifica que os juízes são humanos e erram - se a grande maioria dos ministros concentirem, a decisão é acatada; mas se houver uma divisão muito grande de opiniões, há de se ter outros pontos de vista.

  • Fortalecimento do Pensamento Conservador

    Ultimamente, temos dado trela demais à Malafaias e Felicianos e isso fez dar força à seu discurso. Cada vez mais, surgem grupos extremados e com discursos de ódio, que se sentem legitimados ao ver um deputado utilizando-se do mesmo discurso em rede nacional, e nada acontecer. Não que eu ache que isto tenha sido proposital da mídia (desta vez), mas esta aumentou o alcance e a "moral" de tal discurso. Hoje, como há muito não se via, os Direitos Humanos são postos em xeque por discursos cada vez mais difundidos na sociedade, baseados na defensão da "família, da moral e dos bons costumes".

  • Desconhecimento do Funcionamento do Estado

    Esta eu responsabilizo Estado e mídia, meio-a-meio. Primeiro porque é simplesmente absurdo que não se ensine o funcionamento do Estado Brasileiro nas escolas. Como pode alguém viver num Estado, para o qual paga impostos, utiliza serviços, elege representantes, e não conhecer seu funcionamento? A parte da mídia, é que esta se aproveita do desconhecimento popular para colocar a culpa de todos os padeceres do país em que lhe for conveniente, induzindo, assim, ao erro da população na cobrança de pautas.

Durante

Em meio ao pano de fundo construído durante anos, o Movimento Passe Livre, faz manifestações contra o aumento da tarifa do transporte público, como de praxe. O primeiro ato realizado no dia 06/06, teve aderência pouco maior do que o normal (nada alarmante). Anormal mesmo, foi a cobertura midiática - que de uma nota de rodapé passou para capa. Na tentativa de fortalecer o sentimento de insatisfação com a gestão do PT na Prefeitura de São Paulo, a atenção dada às manifestações, ainda que no sentido de crítica (onde já se viu, mídia elitista apoiar movimento popular?), surtiu efeito propagandístico e ajudou a aumentar exponencialmente o número de participantes nos demais atos, chegando à 20 mil em sua quarta versão.

O Quarto Ato merece um parágrafo só dele: Movida por sentimento de vingança, a polícia de São Paulo organizou um esquema repressivo digno de ditadura, com direito à agressões, policiais não identificados, prisões arbitrárias, abuso de poder e extrema violência. 15 jornalistas saíram feridos. Diante de um número de manifestantes grande e crescente, e da violência policial que já se mostrava em sua própria redação, a imprensa não teve mais como esconder: Mudou o tom, e o foco para a repressão. Curiosamente, dois dias depois, o Governador do Estado, Geraldo Alckmin, que tinha elogiado o trabalho da polícia na quinta-feira sangrenta, vira um pacifista de mãos cheias, convocando o MPL para reunião com o secretário de segurança, liberando quaisquer vias para movimentação e proibindo o uso de balas de borracha pela PM.

Temos então uma comoção nacional. E é neste ritmo que se dá o Quinto Ato, na segunda-feira (17/06): A Paulista em festa, os protestos espalhados pelo Brasil - 200 mil (não se enganem com esses "65 mil" do Datafolha) saem pelas ruas de São Paulo. Bandeiras brancas se agitam nas janelas dos apartamentos. A polícia virou paisagem. O grito que ecoa não é mais o de luta - é de paz, negação de partidos e de "vandalismo" e pelo Impeachment da Presidente. Galera, mas e o aumento da passag... EU SOU BRASILEIRO, COM MUITO ORGULHO, COM MUITO AMOR!

Terça, segue-se o mesmo ritmo de final de Copa do Mundo na Paulista. A pauta... que pauta? Poucos são os que tem a cabeça no lugar. A pauta agora é a Copa, a Educação, a Saúde, a Corrupção, a PEC 37, a Dilma e tantas mais quantas a Veja disser. Cresce o discurso nacionalista. Cresce ainda mais o discurso "apartidarista" (ou antipartidarista?). Patrimônios públicos e privados são depredados e são efetuados saques (?). "Aonde estava a PM?", você me pergunta. "Olhando", eu te respondo. A mesma PM dos abusos de quinta, ficou apenas observando enquanto o caos se construía no Centro de São Paulo. O Choque, demorou 2 horas para chegar, depois de ser acionado pela Prefeitura.

Então, no Sétimo, e último, Grande Ato os partidos de esquerda e movimentos sociais (incluindo o próprio Passe Livre) foram hostilizados por grupos de skinheads e nacionalistas radicais, que tinham o apoio da massa cara-pintada e festiva. Bandeira, só pode a do Brasil. No final das contas, o movimento foi expulso do movimento. O criatura voltou-se contra o criador.

Fazendo uma rápida análise do "Durante": Não tendo mais como esconder ou botar panos quentes, a mídia toma a posição mais inteligente: juntar-se a nós. Mas não sem reger a pauta, é claro. A mídia direitista conseguiu pegar uma manifestação de esquerda, impor pautas de direita e mobilizar uma grande massa para defender suas pautas e sua ideologia, mascarada  de não-ideologia. No final, resolveu-se o problema dos vândalos e arruaceiros da esquerda. Agora temos respeitáveis cidadãos e brasileiros que lutam pelos seus direitos (ou pelos de outrém?).


... E, finalmente, o Depois

É difícil de antecipar os próximos passos, mas tenho teorias que, entretanto, dependem das ações do MPL.

Caso o MPL não venha a organizar mais atos, contra o que quer que seja, este movimento vai se dissipar logo - tão rápido quanto surgiu. Sem a esquerda e os movimentos que ajudaram a formá-lo, não terão forças para se reorganizar, e tudo voltará ao normal (exceto o valor das passagem, amém!).

Se o MPL continuar a fazer atos (o mais provável), os rumos são incertos. Poderemos ter um descontrole gerado pela falta de conhecimento do funcionalismo do estado, intensa instisfação e ausência de pautas definidas. Cabe agora ao MPL definir as pautas e conseguir guiar esta multidão perdida que chamaram para si.

A postura do MPL, aliás, é algo que me preocupa muito. O Movimento tem uma rejeição à esta grande responsabilidade, e recusa-se a tomar para si a posição de liderança, baseando-se no fato de que formam "um movimento horizontal e com pautas definidas, e que nada tem a ver com a movimentação de outras pessoas". MPL, querendo ou não, vocês JÁ assumiram a liderança, e negá-la pode ter sérias consequências. Seria muito mais inteligente, como movimento, como esquerda e como militantes comprometidos, assumir esta posição que, querendo vocês ou não, já lhes cabe. Quem sabe assim, não convertemos os cabeça-de-Globo em cabeças pensantes? Poderemos conquistar muitas coisas juntos, unidos sob um mesmo objetivo. De nada vale muita revolta no coração e pouca coisa na cabeça.

Quanto aos rumores de "golpe": Confesso que fiquei receosa. De fato, parecia (e muito) que a história se repetiria. Mas, hoje, depois de conversas, reflexões e com a cabeça no lugar, tenho duas possibilidades: Um possível golpe político, disfarçado de "revolta popular", que poderia ocorrer caso a situação saia do controle, ou, o mais provável na minha opinião, um golpe de "opinião pública", desses que nossa imprensa dá todos os dias, em prol de seus objetivos. Já descartei a teoria do "golpe militar".

Baseado em todos estes pontos, proponho uma reflexão: Até quando a mídia terá a capacidade de determinar os rumos deste país?