quinta-feira, 18 de julho de 2013

Podia ser Antropofagia Geral, mas é Harvey.

Depois de deixar à todos cientes do meu relacionamento com o "O Enigma do Capital", de David Harvey, e em consideração aos meses passados, aos momentos felizes e aos tristes, resolvi meio que fazer uma "resenha". Digo "meio que fazer uma resenha", porque não vou bem escrever sobre o livro - vou transcrever. Transcreverei alguns trechos do último capítulo "O que fazer e quem vai fazê-lo" e do Epílogo, que, na minha opinião, poderiam muito bem estar falando sobre os últimos acontecimentos e sobre a conjuntura político-social brasileira hoje.

Mas aí já é vandalismo...

"Também seria reconfortante pensar que tudo isso poderia ser conseguido pacificamente e de forma voluntária, que nos despossuiríamos a nós mesmos (...) Mas seria falso imaginar que isso poderia ser assim, que nenhuma luta ativa estaria envolvida, incluindo certo grau de violência. O capitalismo veio ao mundo, como Marx certa vez disse, banhado em sangue e fogo. Embora possa ser possível fazer um trabalho melhor para sair dele do que ficar dentro dele, as chances de uma passagem puramente pacífica para a terra prometida são baixas."


Mamãe, não quero ser prefeito!

"Existem várias grandes correntes de pensamento conflituosas na esquerda quanto à forma de abordar os problemas com que hoje nos confrontamos. Há, acima de tudo, o sectarismo habitual, decorrente da história e de ações radicais e as articulações da teoria política de esquerda. Curiosamente, o único lugar onde a amnésia não é tão prevalente é dentro da esquerda (as cisões entre os anarquistas e os marxistas que ocorreu na década de 1870, entre trotskistas, maoístas e os comunistas ortodoxos, entre os centralizadores que querem comandar o Estado e os antiestadistas autonomistas e os anarquistas). Os argumentos são tão ressentidos e tão turbulentos que às vezes nos fazem pensar que um pouco mais de amnésia ajudaria. Mas além dessas seitas tradicionais revolucionárias e facções políticas, todo o campo de ação política sofreu uma transformação radical desde a década de 1970. O terreno da luta política e das possibilidades de política mudou, geograficamente e organizacionalmente."

"A teoria correvolucionária anteriormente apresentada sugeria que de forma alguma uma ordem social anticapitalista poderia ser construída sem a tomada do poder do Estado, transformando-o radicalmente e retrabalhando as estruturas constitucional e institucional que hoje apoiam a propriedade privada, o sistema de mercado e a interminável acumulação de capital. A concorrência interestatal e as lutas geoeconômica e geopolítica por tudo, desde o comércio e dinheiro até questões de hegemonia, também são importantes demais para serem deixadas para os movimentos sociais locais ou postas de lado como sendo grande demais para serem contempladas. (...) Ignorar o Estado e a dinâmica do sistema interestatal é, portanto, uma ideia ridícula demais para ser aceita por qualquer movimento revolucionário anticapitalista."

"A terceira grande tendência advém da transformação que vem ocorrendo na organização do trabalho tradicional e na organização dos partidos políticos de esquerda, variando desde tradições social-democratas até trotskistas mais radicais e formas comunistas de organização de partidos políticos."



O governo PSDBista de Dilma (ou a social democracia do PT)

"Tanto o trabalho organizado quanto os partidos políticos de esquerda tomaram bons golpes no mundo capitalista desenvolvido ao longo dos últimos trinta anos.Ambos foram convencidos ou coagidos a dar amplo apoio ao neoliberalismo, ainda que este contasse com contornos mais humanos."

Não são só os 20 centavos!

"(...) Em boa parte do mundo capitalista avançado, após um flerte inicial com um renascimento do keynesianismo, a crise da dívida soberana tornou-se uma desculpa para a classe capitalista desmantelar o que sobrou do Estado de bem-estar por meio de uma política de austeridade. O capital sempre teve dificuldades em internalizar os custos da reprodução social (a assistência a crianças, doentes, deficientes e idosos, os custos da previdência social, educação e saúde). Durante os anos de 1950 e 1960, muitos desses custos foram internalizados diretamente (planos de saúde e pensões corporativos) ou indiretamente (serviços financiados por impostos para a população em geral). Mas todo o período de capitalismo neoliberal após meados dos anos 1970 foi marcado por uma luta do capital para livrar-se de tais encargos, deixando a população buscar suas próprias maneiras de adquirir e pagar por esses serviços. Como nós nos reproduzimos é, fomos informados por poderosas vozes de direita na política e na mídia, uma questão de responsabilidade pessoal, não obrigação do Estado.
(...) A ênfase na austeridade é, portanto, um passo adiante por esse caminho em direção à personalização dos custos de reprodução social. O assalto ao bem-estar da população coloca o Estado em rota de colisão, não só com os últimos redutos de sindicatos em muitos países, os sindicatos do setor público, mas também com as populações mais diretamente dependentes da provisão estatal (como estudantes, de Atenas a Paris, Londres e Berkeley). O assalto provocou tamanhas revoltas que até mesmo o FMI tentou avisar os governos mais entusiastas da direita que corriam o risco de provocar uma grande agitação social. Os crescentes sinais de agitação na Europa a partir do outono de 2010 sugerem que o FMI pode estar certo." - Hoje, mais do que nunca, sabemos que estava.


20 centavos a menos na passagem e desoneração para as empresas de transporte. Que vantagem Maria leva?

"Mas o repasse dos custos às pessoas em benefício do grande capital sempre esteve na agenda da direita e da classe capitalista. O presidente Ronald Reagan criou um enorme déficit nos anos 1980 numa corrida armamentista com a União Soviética. Ele também cortou a taxa de imposto sobre os maiores salários nos EUA de 72% para quase 30%. Como seu diretor de orçamento, David Strockman, confessou mais tarde, o plano foi aumentar a dívida e depois usar isso como desculpa para diminuir ou demolir a proteção social e os programas sociais. O presidente George Bush, o jovem, outro republicano, com o apoio de um Congresso controlado por republicanos, seguiu o exemplo de Ronald Reagan à risca. Ele transformou o que tinha sido um excedente orçamental no fim dos anos 1990 em um enorme déficit entre 2001 e 2009, ao travar duas guerras por escolha, ao aprovar um pacote de medicamentos destinados ao sistema públicos que foi um presente às grandes empresas farmacêuticas e ao oferecer cortes fiscais maciços para os ricos. O corte de impostos, disse o pessoal do governo Bush, se pagaria à si próprio com a aceleração do investimento. Não o fez (apenas aumentou a especulação). (...) Agora as guerras custaram 2 trilhões de dólares ou mais, mas não levou a qualquer reação nos anos Bush, porque como o vice-presidente Dick Cheney gostava de dizer, 'Reagan nos ensinou que os déficits não importam'.
(...) O assalto ao bem-estar social das massas deriva do incessante impulso de preservar e valorizar a riqueza dos que já são ricos. (...) Em meio a um imenso clamor público por austeridade e cortes no déficit, os republicanos lutaram com sucesso para estender os cortes fiscais de Bush. Isso dará 370 mil dólares por ano para os 0,1% mais ricos dentre os contribuintes nos Estados Unidos e aumentará o déficit em 700 bilhões de dólares nos próximos dez anos. Enquanto isso, em alguns municípios fecharam sua delegacias e unidades de corpo de bombeiros e, em casos extremos, desligaram a iluminação de rua por falta de fundos. Imagine o caos que se seguiria se tais políticas de corte orçamentário draconianas chegassem às grandes cidades com populações já impacientes. Isso é política plutocrata no seu pior."



Mudando de assunto, a Questão Indígena.

"A voracidade chinesa por matérias-primas não apenas mudou os termos de comércio em favor dos produtores de matéria-prima, mas também desencadeou uma intensificação na concorrência a longo prazo entre Estados, empresas e indivíduos ricos pelo controle da terra, recursos naturais e outras fontes de renda cruciais. A política de despossessão que equivale a uma vasta aquisição global de propriedades, em grande parte do continente africano, América Latina, na Ásia Central e no que resta das regiões vazias do Sudeste Asiático, tem sido indiscutivelmente liderada pelos chineses, recém-chegados a esse campo tradicional entre potências e corporações. Mas mesmo internamente nos Estados, a despossessão de populações inteiras, como já vem ocorrendo nas regiões ricas em minerais no Centro e Nordeste da Índia, tem se dado com rapidez, apesar da resistência dos povos indígenas. Há, ao que parece, muitos interesses que têm a intenção de proteger uma arca sagrada do capitalismo, na medida em que aumenta o  risco de um colapso econômico futuro."


Achei um vídeo também, muito legal, que dá uma baita resumida na teoria exposta nos 3 primeiros capítulos do livros. Está bem resumido e didática, já que está em forma de animação. Vale a pena ver:




"O Enigma do Capital e as Crises do Capitalismo", de David Harvey, foi escrito entre o final de 2009 e o começo de 2010, e teve sua primeira edição em novembro de 2011 pela editora Boitempo.

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