quarta-feira, 29 de maio de 2013

A Questão Indígena


           Já estou há dois dias tentando escrever este post. A questão é tão complicada, há tantos casos, tantos materiais (embora a maioria seja superficial), que para trazer o conteúdo que eu gostaria, tive de fazer uma longa pesquisa. Mas acho que consegui. O resultado está logo abaixo.

          A situação do índio no Brasil já ganhou status de "Questão". Não porque hoje as políticas indigenistas sejam piores do que antigamente (na verdade, tivemos progressos), mas porque hoje, minimamente (repito, minimamente) é dada alguma importância ao caso. Sabe aqueles dias chatos? Em que não houve chacina, ninguém "importante" morreu, a unha do pé do Brad Pitt não está encravada... bom, nesses dias a mídia lembra da questão indígena.
          O índio sempre foi tratado com descaso no Brasil. Sempre foi tratado como invasor. Hoje, é tratado como invasor de "propriedades" rurais (obtidas por grilagem, em sua maioria). Antes, fora tratado como invasor da colônia. O governo não dá aos índios o direito de posse de suas terras, porque não há "suas terras" - e nunca houve. Desde a chegada dos portugueses, os índios foram despossados, e hoje tentam a reintegração de uma posse que o governo nunca lhes concedeu.
          Mas "o Brasil é nosso, não deles". O erro nesta frase, é que os índios estão inseridos no "eles" e não no "nós". Quer saber de quem NÃO é/era o Brasil? Não era da Coroa Portuguesa, não era do empresário americano, que montou sua sede aqui, e não é dos empresários chineses, que, hoje, compram terras para produção agropecuária. Aliás, o Brasil não é de empresários e nem de empresas, viu, Monsanto? Infelizmente, na prática, o Brasil é, sim, dos ricos, poderosos, empresas, empresários e,  na questão agrária, dos latifundiários.
           O assunto indígena que mais está em pauta nesta semana, é a reinvasão do canteiro de obras da propriedade da usina de Belo Monte, no Alto do Xingu. Não vou comentar sobre o lobby entre construtura e governo, grande motivador da obra. Nem sobre a burrice de se fazer uma hidrelétrica numa bacia de planície. Muito menos comentarei sobre o fato de a usina ter que ficar inoperante por quase metade do ano, devido ao volume de águas do rio, ou sobre os impactos ambientais, ou sobre a imensa área que terá de ser alagada para compensar a ausência de quedas d'água. Vou falar sobre índios, apenas sobre os índios, sem comunidade ribeirinha prejudicada, só índios.

            Há cerca de 28 etnias indígenas vivendo na região do Alto do Xingu, que serão afetadas com a contrução de Belo Monte, seja por desapropriação de terras ou comprometimento do ecossistema local e, assim, de seu estilo de vida. Os índios da etnia Munduruku invadiram, novamente o canteiro de obras de Belo Monte, pedindo diálogo com o governo e consulta para obras e demarcações de terra. Justo não? O governo não acha. Tomou uma postura rígida e posicionou-se contra os mundurukus, chamando-os de "metirosos e trapaceiros". Um evento alarmante, foi quando a polícia queria adentrar o canteiro "invadido" e o líder lhes disse: "Não estamos armados e nem quebrando nada, não tem porquê entrarem.". O policial, apontando para a lança de madeira, disse que estavam armados. O líder então falou "essa é a nossa cultura", e o policial, acariciando sua arma, disse "e esta é a nossa cultura".


http://www.xinguvivo.org.br/2013/05/28/belo-monte-nova-ocupacao-mesmas-demandas-mesmos-problemas/

           Outro assunto em pauta é a PEC 215, que transfere a função de demarcação de terras indígenas da Funai para a câmara dos deputados. Além de absurdamente descabida, a proposta favoreceria os latifundiários, pois é grande o lobby do agronegócio dentro do plenário. Ontem, a ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, anunciou que a demarcação de terras indígenas será feita, em conjunto, pela Funai (Fundação Nacional do Índio), Ministério da Agricultura, Ministério do Desenvolvimento Agrário e Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). Um único ógão de proteção indígena e três agrários. Meio injusto, não? É dar as terras de bandeja para o agronegócio, e manter a Funai ali, pra inglês e ONU verem...

http://racismoambiental.net.br/2013/05/produtores-rurais-pedem-suspensao-de-demarcacao-de-terras-indigenas-e-ameacam-parar-o-pais-ou-vale-a-segunda-versao/

           Outra manobra política do Agronegócio contra os índios, é a insistência na instauração de uma CPI para investigar a Funai, no intuito de levar a instituição ao descrédito (o que estão conseguindo).

http://oglobo.globo.com/pais/ruralistas-protocolam-requerimento-para-criacao-da-cpi-da-funai-8399262

           Como ressaltei, o problema dos índios (sim, porque não é problema NOSSO. É problema DELES), não é de hoje. Eles também sofreram na ditadura. Só que não foram uns 300 desaparecimentos e torturas. Foi o massacre e EXTERMÍNIO de cerca de 2.000 índios Waimiri-Atroari, que ninguém, até hoje, tinha se dado conta! A etnia quase foi extinta! Tudo pela construção da BR-174. Num dos panfletos distribuídos, na época, à comunidade Waimiri-Atroari contém esta mensagem:

"Guerrilheiro, Lê com atenção esta"mensagem"/ Guarda este panfleto com cuidado / Ele é o teu passaporte para a vida / Estás cercado / Teus momentos estão contados / Vê na operação esboçada que teu fim / Está próximo! / Teus companheiros estão morrendo / Tu mesmo estás ferido / Os soldados brasileiros - teus irmãos / Estão cada vez mais próximos / A aviação te bombardeia sem cessar / Olha a bandeira de teu país / És brasileiro - lembra-te disto / Reflete, pensa bem - o verdadeiro inimigo / Pode estar a teu lado: repudia-o, aprisiona-o, mata-o / Irmão - rende-te / Teu passaporte: esta mensagem / Tua recompensa: a vida / Teu futuro: perdão. Do comandante do teatro de operações"

http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2012/11/12/comissao-da-verdade-apura-mortes-de-indios-que-podem-quintuplicar-vitimas-da-ditadura.htm

            Este massacre feito com uma população inocente, que foi retratada como subversiva. Lembra-me muito Canudos. Pelas minhas contas, esse foi nosso 3º Canudos (sendo o 2º a Revolta do Contestado). Será o 4º, a questão dos Guarani-Kaiowá, que estão sendo tirados de seu território, para serem ou assentados em terras estranhas ou terem a delimitação destas extremamente reduzida? A etnia cujo os líderes estão sendo mortos por fazendeiros. A mesma etnia, ao qual pertencem muitas tribos que estão comentendo suícido coletivo.
Mais sobre a situação dos Guarani-Kaiowá: http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=203991&id_secao=8

             Os índios tem uma ligação cultural e de identidade com a terra em que vivem e nós não entenderemos isso nunca.


            Por que os índios não são tratados como brasileiros? Por que não tem os mesmos dieitos humanos que nós? Por que a prioridade é sempre do indivíduo inserido em nossa sociedade? É simples de responder: Na atual sociedade capitalista em que vivemos ninguém é indíviduo. Somos consumidores e eleitores. Consumidores para sustentar o capitalismo, e eleitores para sustentar o Estado que mantém o capitalismo. Os índios não tem dinheiro e nem voto (não são obrigados a votar), então não são nada e nem ninguém. Não tem absolutamente nenhum papel nesta sociedade, e estão sendo tratados como o que representam para o governo: um estorvo. A prova disso, é o ocorrido ano passado, quando um determinado candidato, forneceu gasolina para que os índios fossem à cidade, votar nele, e depois das eleições, os abandonou. À míngua, à fome, e às doenças. Sem ter como voltar para sua aldeia. Afinal, aqueles índios tinham adquirido um valor momentâneo: o de eleitor. Passada a votação, voltaram a ser nada.

http://www1.folha.uol.com.br/poder/1167553-indios-que-ganharam-gasolina-para-votar-nao-tem-como-voltar.shtml

            Com a mesma indignação com que o comecei, encerro este texto.

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